Escadaria da Rua João Manoel em 5 de janeiro de 2008 - Foto: Cesar Cardia
Escadaria da Rua João Manoel
Rua Fernando Machado, s/n - Centro Histórico de Porto Alegre
Construída em alvenaria de tijolos e pedra, ascende da rua Cel. Fernando Machado à rua João Manoel, nas proximidades da rua Duque de Caxias.
Os três primeiros lances são centrais e ladeados por muretas baixas, pilaretes e ajardinamento. A partir do terceiro lance os degraus descentralizam-se e, divididos, evoluem nas laterais, com peitoril em ferro trabalhado.
Os degraus sobem contornando e unem-se novamente para outro lance centralizado na escadaria, chegando ao belvedere.
A mureta, balaústre que delimita a escadaria e o belvedere transversalmente, são em alvenaria com tratamento em vazados e balcão de apoio, diferenciando-se das muretas ao nível da rua Cel. Fernando Machado que são lisas.
O sistema pluvial para o escoamento da água da chuva consiste em orifícios dispostos a menos de 1/3 da altura das muretas, em diferentes níveis da escadaria.
Teresa, residente na Fernando Machado, é a pessoa que mais luta pela preservação da Escadaria
Em 2007 surgiu o antigo Movimento Viva Gasômetro, no Centro Histórico de Porto Alegre, que objetivava lutar pela melhoria de Qualidade de Vida no Centro, especialmente no entorno da Usina do Gasômetro. O atual Viva Gasômetro muito pouco tem a ver com o antigo Movimento.
Markinho Binatti em ação na Praça do Aeromóvel
Em dezembro de 2006 algumas pessoas decidiram protestar contra o estado de abandono da Praça Julio Mesquita (Praça do Aeromóvel), que tinha muito lixo acumulado e grande quantidade de ratos, fizeram um ato de protesto e convidaram o pessoal da AMABI e dos Amigos da Gonçalo de Carvalho para participarem. Como o convite feito por e-mail por um dos coordenadores do ato, Christian Lavich Goldschmidt, chegou quase na véspera do ato, não foi possível comparecer. Porém em fevereiro de 2007 entramos em contato com eles para tentar auxiliar o novo Movimento, que como nós estavam preocupados com o Meio Ambiente, problemas urbanísticos e a qualidade de vida na cidade.
Teresa na Escadaria da João Manoel
Na realidade o Movimento não existia, haviam feito um ato de protesto e algumas poucas pessoas se reuniam para trocar ideias sobre o que poderiam fazer, mas sem nenhuma estrutura nem planejamento. Na primeira reunião que compareci, levando material da AMABI e Amigos da Gonçalo de Carvalho, conheci pessoalmente a Jacqueline, Christian, Breno (artesão e vizinho da Jacqueline) e apareceu a Teresa, moradora da Rua Fernando Machado, que já comparecia para essas conversas em frente da Praça do Aeromóvel. Já nesse primeiro dia ela reclamou do estado da escadaria da João Manoel, disse que a tradicional escadaria estava toda pichada, suja, tinha virado ponto de tráfico e consumo de drogas, refúgio de malfeitores e que a prefeitura nada fazia para mudar esse estado deplorável. Disse que com a chegada de gente e mais experiente o Movimento poderia decolar e então atuar também para melhorar a escadaria da João Manoel, mesmo que ela não ficasse tão "pertinho" do Gasômetro.
Escadaria no dia 18/4/2007
Moradores de rua, pichações e muita sujeira
Muitos nem percebem a beleza que está escondida no Centro
DMLU lavou a escadaria de alto a baixo
Muito lixo retirado e muita água foi usada
Outras reuniões aconteceram depois, algumas sugestões para tornar o Movimento visível - como a criação de endereço de e-mail, Blog, estrutura organizacional, lista de prioridades e peças gráficas de divulgação - foram aceitas. Porém foi decidido que o Movimento não teria uma única pessoa na coordenação, quase todos os participantes seriam considerados oficialmente como coordenadores, menos eu que recusei por já participar ativamente da AMABI e dos Amigos da Gonçalo. Então a coordenação do novo Movimento era composta por Jacqueline, Christian, Teresa, Breno, uma jornalista chamada Suzana e a arquiteta Mara Gazola.
Na Duque de Caxias, esquina com João Manoel, o hoje abandonado palacete da família Chaves Barcellos
Em abril de 2007 a Teresa Flores insistiu que o Movimento Viva Gasômetro participasse da limpeza da escadaria, já havia tretado do assunto com alguns moradores da região e donos de um restaurante que então existia na João Manoel, bem no limite da escadaria. Até a data já estava acertada, bastava o Movimento participar para dar mais visibilidade ao ato e pedir o auxílio do DMLU para recolher o lixo e lavar todo o local.
No dia 21/4/2007 iniciou a pintura com cal
A cidadania em ação
Teresa acompanhava tudo, muito contente
Vai ficar bonita novamente, dizia o pessoal do restaurante
Deu trabalho, mas os voluntários estavam muito satisfeitos
Arquiteta Mara Gazola também fez sua parte
Isso foi feito. No dia 18 de abril o Departamento Municipal de Limpeza Urbana limpou e lavou a escadaria e no dia 21 integrantes do antigo Movimento Viva Gasômetro, moradores e o pessoal do Restaurante Autêntico Sabor pintaram com cal toda a escadaria. Saiu até matéria na capa no jornal Correio do Povo.
"Mutirão limpa escadaria", foi a manchete do Correio do Povo
Com o exemplo dado pela cidadania, a prefeitura passou a limpar e lavar a escadaria mais seguidamente e em 5 de janeiro de 2008, aconteceu um ato simbólico de "energização" com ervas e pétalas de flores, pela Ialorixá Cenira do Xangô na escadaria pintada pela prefeitura municipal, sempre com o acompanhamento da Teresa Flores, a "madrinha" da Escadaria da Rua João Manoel.
Trecho da João Manoel entre a escadaria e Duque de Caxias
A escadaria no dia 5 de janeiro de 2008
A escadaria no dia 5 de janeiro de 2008
A escadaria no dia 5 de janeiro de 2008
Energização com ervas e pétalas de flores em 05/1/2008
Energização com ervas e pétalas de flores em 05/1/2008
Energização com ervas e pétalas de flores em 05/1/2008
Energização com ervas e pétalas de flores em 05/1/2008
O problema é que esse tipo de ação pontual não resolve o estado de abandono da escadaria da João Manoel. Se mais pessoas se envolvessem, cuidando, denunciando os atos de vandalismo e pressionando as autoridades, tudo seria mais fácil. Os "cuidadores da cidade", na sua grande maioria são pessoas com mais idade e os jovens parecem ter outras prioridades, poucos participam desse tipo de ações.
(Cesar Cardia - integrante do Movimento Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho) Todas as fotos das ações na Escadaria: Cesar Cardia/Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho
A história da Escadaria
Na época de sua construção, sem os altos prédios no entorno
Durante a administração de Alberto Bins foram implantadas várias melhorias, buscando resolver os problemas viários, sanitários e de embelezamento da cidade de Porto Alegre seguindo o “Plano Geral de Melhoramentos” proposto em 1914 por Moreira Maciel. Uma das estratégias do plano consistia no saneamento e adaptação do antigo centro colonial às novas condições urbanas, levando em conta higiene e circulação. A área colonial de Porto Alegre se configurava entre o Mercado Público e a ponta da península, tendo como centro a Praça da Matriz, no ponto mais alto da cidade. Algumas ruas, em áreas de grande declive, se tornaram impossíveis de transitar, gerando becos que não permitiam a circulação e ainda acabavam servindo como depósitos clandestinos de lixo.
Este era o caso da Rua General João Manoel, no trecho de ligação entre a Rua Fernando Machado e a Duque de Caxias, que terminava em um barranco intransitável no antigo Morro da Formiga. Do arruamento original da Vila de Porto Alegre, a ladeira preocupava o município desde 1883, quando surgiu a proposta de urbanizar o trecho. Porém o alto custo inviabilizou o projeto de ser executado, “sendo feita, entretanto, a demarcação para evitar que se construa qualquer obra”. Em 1922, conforme relatório do Intendente José Montaury, foram plantados 20 jacarandás.
Em 1929, um local para apreciar a paisagem
A Rua Duque de Caxias era uma das mais elegantes da capital, onde se localizavam as residências das famílias mais abastadas da cidade, o Palácio Piratini e a Catedral Metropolitana. O beco localizado naquela área trazia imenso prejuízo ao saneamento e visual da região, como explicou Alberto Bins no Relatório de 1929:
“A zona compreendida entre o alto do morro e a rua Fernando Machado, aberta e abandonada, era receptáculo de clandestinos despejos de lixo e de juncções de toda a natureza, com grave danno a hygiene daquella zona.”
A solução foi criar um belvedere com escadaria, uma vez que o barranco exigia rampas com mais de 25% de inclinação O projeto, elaborado em 1928, ficou a cargo da Seção de Desenhos da Comissão de Obras Novas, chefiada por Christiano de La Paix Gelbert, que assina o projeto. O Plano de 1914 previa o alargamento da Rua Gal. João Manoel para 18 metros, mas no relatório apresentado pelo prefeito ele justifica que seria mais conveniente deixar a rua como era e alargar e prolongar a Travessa Araújo. Ele explica que essa ideia surgiu depois do projeto pronto, já que esta seria a solução mais econômica. Nem no projeto, nem no Relatório de Moreira Maciel existe citação sobre o prolongamento da Rua Gal. João Manoel até a Rua Fernando Machado, o que provavelmente foi uma melhoria proposta pela Comissão de Obras Novas.
Nos anos 60 a cidade crescia e a escadaria se deteriorava
O projeto da escadaria se divide em três partes, sendo o seu início na Rua Duque de Caxias formado por um lance de escadaria central, com largura de dois metros, ladeado por dois taludes de grama. O acesso à escadaria se dá por duas praças laterais, com uma balaustrada geométrica, na qual dois bancos permitiam que se contemplasse a vista da Orla do Guaíba, numabela paisagem que hoje é interceptada por altos edifícios e pelo aterro. O primeiro lance chega a um amplo patamar do qual a escada é dividida em dois lances mais estreitos, contornando um grande terraço de 36 metros quadrados e criando um pórtico em forma de arco conformado pelo desnível da escada. Nesta parte, a balaustrada é substituída por um corrimão de ferro, também com linhas retas, proporcionando uma visão mais ampla da paisagem que se descortina para quem circula.
Altos prédios vão escondendo a escadaria
A terceira parte é formada por mais três lances centrais com largura de dois metros interceptados por patamares “naturais”, sem calçamentos e com inclinção de 5% que, segundo Bins, eram cobertos com areia grossa. A mesma balaustrada fechada, que acompanha o último lance da escadaria, faz o fechamento na chegada à Rua Cel. Fernando Machado.
A obra foi executada pela firma de Theo Wiederspahn, que venceu a concorrência, tendo início em 28 de agosto de 1928 e fim em 3 de fevereiro de 1929. A tradicional família Chaves Barcellos custeou um terço da despesa total da obra, uma vez que eram donos de dez terrenos na Rua Fernando Machado, atingindo toda a extensão da rua, queriam murá-los e edificar no alinhamento.
A escadaria foi tombada pelo Município como Patrimônio Histórico, com a intenção de preservar a identidade do centro de Porto Alegre. Além da importância arquitetônica, o belvedere teve importante influência na vida da população de Porto Alegre, conforme Instrução de Tombamento da EPAHC:
“Ele proporcionou a artistas plásticos e poetas inspiração para seus trabalhos. Os moradores da redondeza e os transeuntes se detinham a admirar a paisagem, principalmente pelo belo pôr-do-sol do Guaíba.”
O crescimento da cidade influenciou o entorno da escadaria, que passou a abrigar edifícios altos, mudando completamente sua percepção. Nestes anos, muita história envolveu a escadaria. O Plano Diretor de 1959 previa a construção de um túnel que demoliria a obra, mas o projeto foi abandonado pela municipalidade devido a sua inviabilidade. Uma paineira que se localiza junto à escadaria, hoje entre dois edifícios, conseguiu sobreviver às mudanças após movimentos em prol desua preservação. Hoje, bastante escura e deteriorada por limo e pichações, pouco mostra de seu aspecto original que se criou na década de 30, mas resiste como parte de uma época na qual seu percurso estava ligado ao desfrute visual da paisagem.
Fonte: trabalho de Taísa Festugato, em setembro de 2012 – "A arquitetura de Christiano de La Paix Gelbert em Porto Alegre (1925 – 1953)" – Programa de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura – PROPAR
Link para acessar ao trabalho completo da Taisa Festugato:
Todos falam que é preciso "crescer mais", aumentar o PIB (produto interno bruto). Afinal, o que é realmente o PIB?
O que realmente conta na vida não é mensurável, por isso vivemos uma
“falência da felicidade quantificável”. Por outro lado, “um crescimento
infinito é incompatível com um mundo finito. Quem acredita nisso ou é
louco ou é economista”. (leia mais aqui: http://goncalodecarvalho.blogspot.com.br/2011/11/decrescimento.html)
O aumento do PIB realmente acaba com a miséria?
''É preciso deseconomizar o imaginário''
Trecho de uma das últimas palestras do ecologista José Lutzenberger em 2002, desmistificando essa falácia do pensamento econômico atual.
"Se um avião cai e é montada uma grande operação para resgatar destroços e corpos, isso aumenta o PIB. Se um país monta uma grande operação de guerra, aumenta a produção de armas, isso movimenta a economia do país, logo aumenta seu PIB. Isso é bom para a humanidade?"
O início do conflito, quando os manifestantes se dirigiam para protestar na frente do grupo de comunicação RBS.
A ótima e isenta matéria do Sul 21 sobre o protesto em Porto Alegre: Protesto em Porto Alegre tem multidão nas ruas e forte confronto com a polícia
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Iuri Müller, Samir Oliveira, Igor Natusch, Débora Fogliatto, Ramiro Furquim
Nesta segunda-feira (17), Porto Alegre viu passar pelas suas ruas uma
das maiores manifestações dos últimos tempos. Estima-se que mais de dez
mil pessoas foram às ruas para protestar contra o possível aumento da
tarifa de ônibus, as restrições sociais geradas por megaeventos
esportivos e contra a violência que marcou outras marchas em distintas
capitais do Brasil. No entanto, quando adentrou a noite, o protesto se
modificou tanto que mais parecia outra manifestação – outra vez, houve
diversos confrontos com a Brigada Militar, ataques a prédios públicos e
discrepâncias entre os próprios manifestantes.
A partir das 18 horas, centenas de pessoas se concentraram na Praça
Montevidéu, em frente à Prefeitura Municipal. Diferentemente de outros
dias, nesta segunda-feira os próprios cartazes mostravam que a caminhada
seria distinta. As mensagens lembravam novas reivindicações, como a
crítica aos episódios recentes de corrupção e a impunidade histórica que
acreditam pairar sobre a classe política. Um cartaz dizia “Não à
PEC-37”, adesivos lembravam a CPI da Telefonia e uma faixa deixava uma
pergunta retórica no ar: “1964, é você?”. Nos cânticos e nas mensagens,
estava clara a referência – e a solidariedade – com os atos que tinham
início, quase na mesma hora, em outras cidades do Brasil como Rio de
Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Aqui ou ali, os militantes que se
concentravam logo seriam milhares e, depois, dezenas de milhares.
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Para Marcelo, ativista que rumou à Praça Montevidéu no início da
noite, “o movimento quer é mudanças profundas”. Ele dizia que o aumento
nas tarifas do transporte público foi “apenas a gota d’água” de uma
série de episódios de descaso com a população brasileira. As bandeiras
nacionais, aliás, estiveram presentes durante o trajeto como nunca:
assim como o hino do Rio Grande do Sul foi cantado com força em alguns
momentos. Ana, outra militante que se juntava ao movimento, afirmou que a
população estava encontrando “formas de mostrar um descontentamento
coletivo”. A aglomeração multitudinária de pessoas em distintos lugares
do Brasil mostraria, mais do que nada, “a insatisfação geral com todos
os problemas que o país enfrenta há muito tempo”.
Os manifestantes deixaram as proximidades do Largo Glênio Peres e
passaram a caminhar pelas ruas de Porto Alegre por volta das 19 horas.
Com o rosto tapado, um manifestante lembra que não costuma sair assim
nos atos, mas que achou necessário por conta das detenções recentes.
Assim como ele, houve quem dissesse estar “marcado” pela Brigada Militar
e buscaram formas de evitar outra detenção. Quando a passeata entrou na
Avenida Salgado Filho, o grupo já era formado por milhares, e não
parava de crescer. A manifestação era inteiramente pacífica e emocionava
a muitos dos que viam de fora. A extensão do ato, no entanto, só foi
compreendida na Avenida João Pessoa, quando todos passavam por uma mesma
e visível rua: a multidão era maior do que na quinta-feira passada
(13), e ultrapassava o número de dez mil pessoas.
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Porto Alegre viveu uma só marcha, mas houve momentos tão distintos que mais pareceram duas
Em muitas janelas, panos, bandeiras e toalhas brancas mostravam aos
manifestantes que ali havia apoio – da mesma forma que pessoas abanavam
dos prédios, aplaudiam nos carros e nas calçadas. Em um dos edifícios,
uma faixa anunciava que os moradores haviam liberado a internet sem fio
para os manifestantes, repetindo algo que aconteceu também na Turquia. O
grito mais ouvido enquanto a marcha passava pela Avenida João Pessoa
era: “o povo acordou!”. Para Gilberto, que não compartilhava da mesma
faixa etária que a maioria dos presentes, o protesto foi um dos maiores
das últimas décadas. “Acho que desde a época da ditadura, quando as
pessoas também enchiam as ruas, eu não via uma passeata tão grande”,
disse. Mesmo quando a marcha passou pelo mesmo cenário em que, no último
protesto, houve confronto aberto entre manifestantes e a polícia
militar, a caminhada parecia pacífica.
Foi no instante em que a manifestação optou por dobrar em direção à
Avenida Ipiranga, no entanto, que as situações se transformaram. A parte
dianteira do grupo se aproximava da sede do Grupo RBS, na esquina com a
Avenida Érico Veríssimo, quando se ouviram os primeiros disparos e
bombas da noite. A Brigada Militar havia entrado em confronto com os
manifestantes pela primeira vez, conflito que se repetiria em vários
momentos e lugares no decorrer da manifestação. A imensa maioria dos
manifestantes parou de caminhar imediatamente. No outro lado da avenida,
uma concessionária de motos foi atacada e houve quem corresse para
dentro do local. Minutos depois, bombas e rojões atravessavam o Arroio
Dilúvio: o cenário havia mudado completamente, e o enfrentamento
permaneceria vigente por mais de uma hora nas proximidades entre a
Ipiranga e a Azenha.
Manifestantes que encabeçavam a marcha recuaram com o passar do
tempo, muitos buscando água para aliviar os efeitos das bombas de gás
lacrimogêneo que foram jogadas aos montes. Enquanto recuavam, alguns
gritavam “sem violência!” e “a luta não se reprime, protesto não é
crime!”. A reportagem do Sul21 presenciou casos em que os
ativistas tiveram que ser levados para casas próximas a fim de receber
auxílio, e até ambulâncias do Samu tiveram que resgatar pessoas na
multidão. Na medida em que a onda de gás lacrimogêneo – constantemente
alimentada por novas bombas – crescia pela região, os manifestantes
recuavam pela Avenida João Pessoa. Por trás da cortina branca de fumaça,
a batalha entre alguns ativistas e a polícia se mantinha com força:
balas de borracha eram disparadas sem parar, e as pessoas que corriam
tentavam entender a dimensão do conflito.
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Protesto termina em confronto aberto e perseguição pelas ruas do Centro
Quando a permanência na Avenida João Pessoa se tornou inviável em
função do gás e dos tiros, a marcha se dirigiu para a Cidade Baixa e,
consequentemente, se fragmentou. Neste momento, havia o temor de que a
polícia bloqueasse os acessos e cercasse os manifestantes, como no
protesto da última quinta-feira. De tempos em tempos, mais pessoas
deixavam o principal foco de confronto e caminhavam para o Largo Zumbi
dos Palmares, junto à Perimetral. Um grupo de manifestantes permanecia
resistindo às investidas da Brigada Militar, que buscava desocupar a
via, mas em algum momento foi necessário correr em retirada. No caminho,
contêineres de lixos foram queimados, outros vidros racharam e um
ônibus foi incendiado. Uma longa e dispersa perseguição teve início.
Entre os militantes que já haviam alcançado a Cidade Baixa,
difundiu-se a ideia de retornar à Avenida João Pessoa. O grupo
permaneceu parado na Perimetral durante cerca de dez minutos, e em
seguida praticamente todos aderiram ao chamado de voltar. Enquanto isso,
outra parte do grupo retornava pela Rua Lima e Silva e teve de se
refugiar em bares para evitar os efeitos da perseguição. A Brigada
Militar, pouco a pouco, tentava diminuir o espaço e estar a poucos
metros da manifestação. A violência observada nas vias já mencionadas
deixou consequências: 38 manifestantes foram detidos e cinco ficaram
feridos.
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Parte da multidão voltou a se concentrar e, por volta das 23 horas,
cruzou a Avenida Borges de Medeiros, por baixo do viaduto. Houve quem
derrubasse as luminárias que contornam a passagem, impondo riscos aos
demais manifestantes: as esferas caíram sobre a multidão que caminhava
logo abaixo. Naquele local, um carro de uma empresa de segurança ficou
trancado em meio aos ativistas e o motorista foi ameaçado pelos
manifestantes. Numa ação perigosa, o veículo abandonou o local em marcha
ré e por pouco não atropelou com gravidade um ciclista. Pouco antes,
ainda na Perimetral, a motorista de um táxi que rompeu o bloqueio do
protesto viveu momentos de terror psicológico. Foi cercada por um
reduzido grupo que a insultou e tentou furar os pneus do carro.
No final da noite, quase início da madrugada, o palco dos confrontos
foi o Centro de Porto Alegre. A cavalaria da Brigada Militar, com sabres
em punho, passou correndo pela Duque de Caxias, enquanto manifestantes
tentavam alcançar o Palácio Piratini e a Assembleia Legislativa. Prédios
da Praça da Matriz, como o Theatro São Pedro e o Palácio da Justiça,
tiveram os vidros quebrados, mas o grupo não chegou aos locais
pretendidos. A partir daí, a polícia bloqueou ruas centrais e abordou
manifestantes que passavam com mochilas, ao passo em que os bombeiros
circulavam para apagar o fogo de contêineres. Durante parte da noite,
Porto Alegre teve o serviço de ônibus suspenso em função dos
acontecimentos.
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Tarso Genro: “temos que transformar o momento em algo favorável”
Em entrevista coletiva concedida no final da noite de segunda-feira
(17), o governador gaúcho Tarso Genro disse respeitar as manifestações
ocorridas em Porto Alegre e em outras cidades do Brasil, as quais
atribui a um sentimento de insatisfação popular com as instituições
políticas. “É preciso analisar bem a situação, chamar as pessoas para
que continuem se manifestando, mas faço um apelo ao movimento para
evitar atos violencia”, afirmou o governador, acrescentando que “ainda
está monitorando” os acontecimentos. “É um momento que requer muita
ponderação”, descreveu Tarso.
Segundo ele, os acontecimentos violentos na noite de Porto Alegre são
obra “de uma parte restrita” dos manifestantes, que acaba prejudicando a
compreensão do restante da população quanto aos objetivos do movimento.
Tarso afirma que a BM interveio quando “as depredações se dirigiam para
ameaça de integridade física” e que a barreira policial foi necessária
para evitar que o confronto “descambasse para violência generalizada”.
De acordo com ele, a orientação era para que a Brigada Militar
“usasse de toda ponderação” quanto aos protestos. “O que chegou a mim é
que foi cumprido. Mas se constatarmos que houve ato inadequado, vamos
responsabilizar”, garantiu. “Temos a Corregedoria, a própria estrutura
de segurança pública, e faremos uso dessas estruturas para apurar
excessos”.
Ainda segundo Tarso, é possível “transformar o momento desfavorável
em algo favorável”, a partir de uma mudança política nacional. “Temos
que aproveitar esse acontecimento para uma profunda reforma das
instituições e dos partidos políticos”, defendeu. “Há depredações em
toda parte (do Brasil). Esperamos que os parlamentos dê respostas a essa
juventude, promovendo a reforma de um sistema que está marginalizando
milhares e milhares”, concluiu. Veja mais fotos do ato desta segunda-feira:
Povo se reunindo em frente da prefeitura - Foto: Cesar Cardia
Bandeiras de partidos eram vaiadas - Foto: Cesar Cardia
Não era apenas um protesto de jovens - Foto: Cesar Cardia
"Uma cidade para pessoas, não para carros"- Foto: Cesar Cardia
Cavalaria e Tropa de Choque sempre acompanhando a Marcha - Foto: Cesar Cardia
Inicia a Marcha, tomando a Av. Borges de Medeiros - Foto: Cesar Cardia
Muitos aplausos e acenos vinham dos prédios - Foto: Cesar Cardia
"Não existe escudo grande o suficiente para cobrir a VERGONHA de
machucar inocente", está escrito no cartaz - Foto: Cesar Cardia
Na concentração do Ato de Protesto no dia 17 de junho em Porto Alegre, manifestantes cantam o Hino Rio-grandense em frente da prefeitura municipal. (vídeo feito por ZH).