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13 outubro 2014

A falácia do PIB

Todos falam que é preciso "crescer mais", aumentar o PIB (produto interno bruto).
Afinal, o que é realmente o PIB?
O que realmente conta na vida não é mensurável, por isso vivemos uma “falência da felicidade quantificável”. Por outro lado, “um crescimento infinito é incompatível com um mundo finito. Quem acredita nisso ou é louco ou é economista”. (leia mais aqui: http://goncalodecarvalho.blogspot.com.br/2011/11/decrescimento.html)

O aumento do PIB realmente acaba com a miséria?
''É preciso deseconomizar o imaginário''
Trecho de uma das últimas palestras do ecologista José Lutzenberger em 2002, desmistificando essa falácia do pensamento econômico atual.
"Se um avião cai e é montada uma grande operação para resgatar destroços e corpos, isso aumenta o PIB. Se um país monta uma grande operação de guerra, aumenta a produção de armas, isso movimenta a economia do país, logo aumenta seu PIB. Isso é bom para a humanidade?"

08 maio 2014

Dayrell em Porto Alegre

Dayrell em 1975: +VERDE  -CONCRETO - Foto: Carlinhos Rodrigues/ZH
Ativista que virou símbolo nacional na luta pela defesa das árvores visitará a Rua Gonçalo de Carvalho
Carlos Alberto Dayrell, o jovem ativista mineiro da AGAPAN que em plena ditadura - 1975 - subiu em uma árvore para evitar seu corte, está no Rio Grande do Sul. Veio participar de um seminário na Unisinos e aproveitará para visitar parentes, matar as saudades dos companheiros da Agapan e também visitar a "rua mais bonita do mundo".

A placa alusiva ao decreto que preservou o Túnel Verde foi colocada no local onde
ocorreram muitas manifestações em defesa da Rua. Bem no acesso ao shopping!
Foto: Cesar Cardia/Amigos da Gonçalo

Na sexta-feira, 9 de maio, irá na Rua Gonçalo de Carvalho às 17h. O encontro foi marcado no local da placa alusiva ao tombamento da Rua.

Alunos do Colégio Bom Conselho na Rua Gonçalo de Carvalho
em 5 de junho de 2012 - Foto: Cesar Cardia/Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho

Depois da visita ao Túnel Verde da Gonçalo ele participará de um bate-papo - aberto a todos que queiram participar - que está sendo organizado pela Agapan - Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural - em local ainda não definido.

Dayrell e seus colegas na árvore em plena ditadura militar - Foto: Arquivo AGAPAN


Matéria do site AgirAzul, de 1998:

AgirAzul 13
HISTÓRIA

Carlos Alberto Dayrell é Cidadão de Porto Alegre

O então estudante que salvou a Tipuana na frente da Faculdade de Direito da UFRGS, em 1975, recebeu o título de representantes da Câmara de Vereadores que foram à Faculdade de Direito. Ele não abandonou a luta ecológica.

Por Roberto Villar  

Carlos Alberto Dayrell recebeu o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre. Lembram dele? Na manhã do dia 25 de fevereiro de 1975, uma grande multidão se formou na frente da Faculdade de Direito da UFRGS, em uma das principais vias da cidade, a avenida João Pessoa.

Funcionários da Secretaria Municipal de Obras estavam cortando dezenas de árvores para construir o viaduto Imperatriz Leopoldina. Um estudante de engenharia elétrica, sócio da Agapan - Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, subiu numa Tipuana (Tipuana tipu) para impedir o trabalho das motosserras.

Ela está lá até hoje. O protesto terminou na delegacia de polícia política. Foi notícia nos principais jornais. A foto ganhou destaque de capa no diário O Estado de São Paulo. Naquela época, impedir o corte de árvores era crime contra a segurança nacional. "De minha parte, colocaria como marco inicial de um movimento ecopolítico no Brasil o caso Carlos  Dayrell", escreveu Alfredo Sirkis no apêndice da edição brasileira do livro Rumo ao Paraíso — A história do movimento ambientalista, de John McCormick.

Mais do que um símbolo, Dayrell é um herói sempre citado pelos ecologistas gaúchos. "O protesto do Dayrell foi o fato que mais sacudiu a opinião pública na época", reconhece o primeiro presidente da Agapan, José Lutzenberger, atual mentor e dirigente da Fundação Gaia.

Por recomendação médica, e por receio de alguma represália por agentes do Governo, em 1976 o jovem estudante mineiro, natural de Sete Lagoas, fugiu do clima frio e úmido da capital gaúcha e voltou para Minas Gerais. Ele nunca mais foi visto em Porto Alegre. Ficaram apenas as histórias do protesto que marcou o início do movimento ecológico brasileiro.

"O protesto do Dayrell foi um marco para nós. Naquele dia, toda a imprensa do Rio Grande do Sul e do Brasil nos conheceu", recorda o presidente da Pangea, Augusto Carneiro, fundador da Agapan, naquela época militando nesta entidade.

Dias antes do protesto, Dayrell tinha viajado para Torres com um grupo de ambientalistas da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, criada em 1971. O corte das árvores no Parque da Redenção já era assunto dos ecologistas. Carneiro recorda que numa reunião José Lutzenberger chegou a sugerir que os jovens subissem nas árvores para impedir a derrubada.

Dayrell estava presente, ouvindo com atenção. Quem mandou derrubar as árvores para construir o viaduto foi o prefeito Thompson Flores. Lutzenberger não esquece: — Ele mandou derrubar as árvores durante as férias, pensando que não iria haver estudantes lá. Esqueceu que era dia de matrícula. Surpreso, o prefeito argumentou que iria derrubar 25 árvores para melhorar o tráfego, mas estava plantando 20 mil nos bairros.
Aí, preparamos um manifesto que começava mais ou menos assim: "Argumentar que não tem importância derrubar 25 árvores velhas, porque estão sendo plantadas 20 mil novas, seria como dizer não importa que morra o nosso velho e sábio prefeito, estão nascendo tantos bebês".

A placa em homenagem a Dayrell na Faculdade de Direito da UFRGS
Foto em 15/10/2011: Cesar Cardia/Amigos da Gonçalo de Carvalho

O atual diretor da Faculdade de Direito da Ufrgs, professor Eduardo Kroeff Carrion, conselheiro da Agapan, decidiu fazer uma homenagem a Carlos Dayrell. No dia 20 de novembro, Carrion reuniu em seu gabinete representantes de importantes entidades ecologistas de Porto Alegre — Agapan, Pangea, Coolméia, e União pela Vida, que resolveram co-organizar os eventos e solicitar ao vereador Gerson Almeida (PT) fosse encaminhado ao Dayrell o título de Cidadão de Porto Alegre.

Quase 23 anos depois, Dayrell participou de dois atos públicos no dia 28 de abril de 1998, um dia após a data do aniversário de 27 anos da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural.

Foi implantada num dos pilares da cerca da Faculdade de Direito, em frente à árvore salvada,  placa de metal para lembrar à posteridade o protesto de 1975.  Carlos Dayrell também recebeu de representantes da Câmara de Vereadores o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre, proposto por Almeida, em sessão realizada no auditório da própria Faculdade.

Carlos Alberto Dayrell foi localizado em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Está com 44 anos e três filhos. O mais velho, Luciano, com 16 anos, e a mais nova, Luana, com 10, além de sua mãe, a simpática Dona Alexandrina, também vieram à Porto Alegre.

Matéria da revista Veja em 1975
Após o episódio, trocou a engenharia elétrica pela agronomia e está trabalhando como consultor do Centro de Agricultura Alternativa.  Nesta entrevista, Dayrell fala do seu trabalho em Minas Gerais e recorda detalhes do mais importante protesto ecológico de Porto Alegre.

O que você está fazendo em Minas Gerais?
Eu trabalho numa entidade chamada Centro de Agricultura Alternativa. É uma Organização Não-Governamental que presta assistência a pequenos produtores rurais, dentro desta proposta de desenvolver uma agricultura mais sustentável.
Então você não abandonou a luta ecológica?
Realmente. Naquela época do protesto em Porto Alegre, era muito um sentimento que a gente tinha de preocupação com a vida. E este sentimento vem se aprofundando. Hoje, a gente tenta de outras formas, continuar esta busca por uma vida mais digna e sustentável, não só pra gente, mas para as gerações futuras.
Por que você subiu naquela árvore em 1975?
Naquela época eu morava em Porto Alegre e entrei na Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural. Eu morava na Casa do Estudante, na frente da Faculdade de Direito. Naquele dia eu estava saindo de casa para fazer minha matrícula na Universidade e fiquei chocado com o que vi. Um monte de árvores já no chão. Me chamou muito a atenção porque todo mundo passava indiferente. Eram árvores belas, que davam uma sombra muito agradável. Foi algo meio instintivo. Como você fez para subir tão alto naquela árvore? Eu tava na rua pensando o que fazer... aí passou um amigo meu, o Marcos Sarassol. A árvore realmente era muito alta. Os funcionários da Prefeitura estavam utilizando uma escada para cortar os galhos, e depois o tronco. Eu pedi a escada emprestada e coloquei na primeira árvore.
Quanto tempo você ficou lá em cima?
Eu nem lembro direito. Eu sei que era de manhã, pois eu iria fazer minha matrícula na Faculdade. A gente ficou lá até umas três ou quatro horas da tarde. O pessoal passava lanche pra gente. Logo uma multidão ficou em volta. Teve dois companheiros que subiram pra me apoiar, logo no começo, o Marcos e a Teresa Jardim.
Qual foi o papel da imprensa naquele episódio?
Se não fosse a imprensa naquele momento, talvez o pessoal teria derrubado a gente. Tinha jornal, televisão e rádio lá. O fato foi sendo divulgado e a população foi chegando em volta. Porto Alegre estava vivendo naquela época um processo de transformação importante. Era uma cidade que estava crescendo o número de carros, as ruas precisavam ser ampliadas. Mas havia muita preocupação com a qualidade do ambiente urbano. De certa forma, foi uma reflexão. Eu lembro que saiu muita matéria sobre a questão do desenvolvimento e da qualidade de vida.
Quanto tempo você morou em Porto Alegre?
Eu cheguei em Porto Alegre em 1970 para trabalhar no Banco Mineiro do Oeste, que depois foi comprado pelo Bradesco. Entrei na Ufrgs para estudar Engenharia Elétrica. Depois fiz novo vestibular para Agronomia. Morei em Porto Alegre até 1976. Por problema de saúde, voltei para Minas Gerais. Consegui uma transferência para a Universidade Federal de Viçosa. Me formei em Agronomia em 1980. E desde então, trabalho com agricultura alternativa, com agroecologia.
O que você faz em Montes Claros?
Atualmente eu trabalho no Centro de Agricultura Alternativa. Eu estou fazendo um curso de mestrado na Espanha, em agroecologia e desenvolvimento rural sustentado. Aqui a gente dá assistência a pequenos produtores rurais. A nossa grande preocupação aqui no norte de Minas Gerais é com o Cerrado.

A imagem de Dayrell na árvore está em um dos banners da AGAPAN

As palavras de Dayrell

Caros Amigas e Amigos:
Eu fico aqui pensando se por acaso vocês aqui estão, vereadores da Câmara Municipal de Porto Alegre, representantes da Faculdade de Direito que está comemorando o centenário de fundação da instituição, militantes do movimento ecológico gaúcho representados pela Coolméia, Pangea, União pela Vida, Núcleo dos Ecojornalistas, Fundação Gaia e Agapan, que merece lembrar, ontem, fez 27 anos de fundação, com uma trajetória reconhecida não só aqui no Estado, mas em todo Brasil e inclusive no Exterior.
Eu fico pensando se, por acaso, vocês que aqui estão   presentes, possam ter idéia do que representa este momento para o cidadão Carlos Dayrell, um desconhecido nos sertões de Minas Gerais, que saiu de Montes Claros, no norte do Estado, um sertanejo que se define no dizer de Guimarães Rosa: “Sou só um sertanejo. Nestas altas idéias, navego mal”.
E quem é o sertanejo?
O sertanejo é um homem criado num ambiente onde o contrato natural que ele estabelece com o seu meio é mediado pelo respeito com a natureza. E pode ter sido um fragmento deste sentimento, lapidado pelo sentimento gaúcho na sua relação com a imensidão dos pampas, que fez o ainda menino mover-se por um sentimento natural, tornar-se sem saber e sem querer, através de um gesto coletivo, um símbolo de uma sociedade que se propõe estabelecer um novo contrato com o seu meio.
Pois é um destes sertanejos que está aqui nesta cerimônia, que está aqui hoje para receber o título de Cidadão de Porto Alegre onde, com muita responsabilidade e carinho, vai levar de volta para o lugar onde vive, quem sabe um elo invisível traçado hoje por vocês, um elo invisível mas permanente de amor por uma causa que é muito maior que a soma de todos nós.
Vocês não podem imaginar a emoção que isto faz comigo e na verdade é até difícil entender como hoje estou aqui nesta cerimônia. Certamente, para eu estar aqui hoje muita coisa mudou nos corações das pessoas que lidam diariamente com decisões que influenciam a vida de centenas de milhares de cidadãos. Inclusive com a minha. Muita coisa mudou pois, quando sai daqui em 1976, de volta a Minas Gerais, um ano e meio após o episódio da subida na árvore, minha mãe ainda carregava consigo a tensão de uma possível represália da ditadura militar contra o seu filho.
Episódio que compartilho com Marcos Sarassol, Teresa Jardim, com a imprensa de Porto Alegre, com os militantes da Agapan, com centenas de pessoas, estudantes populares que anonimamente lutaram naquele dia pela preservação da árvore, não se curvaram diante do aparato militar e que, de lá para cá provocaram um salto na luta pela defesa, não só das árvores isoladamente, mas em defesa da vida em seu sentido mais amplo. Esta homenagem compartilho com todos vocês.
Eu não poderia estar aqui se não fossem os ensinamentos de meus pais, que, em 1970, ainda com 17 anos, permitiram que saísse de Sete Lagoas para estudar e trabalhar em Porto Alegre.
Eu não poderia estar aqui se não fosse o carinho do meu irmão Geraldo Dayrell Filho e de toda a família Hiwatashi, ilustres horticultores de Porto Alegre, que me acolheram como membro da família, e me estimularam na profissão que segui.
Eu não poderia estar aqui se não fossem pessoas como José Lutzenberger, Augusto Carneiro, Caio Lustosa, Magda Renner, e muitos outros que colaboraram no desenvolvimento da percepção de solidariedade não só com a vida no planeta Terra de hoje, mas uma solidariedade intergeneracional, solidariedade para coma vida das gerações que estão por vir, solidariedaade para com gerações anteriores que souberam nos legar um planeta amplo de possibilidades e de potencialidades.
Solidariedade que se traduz não em grandes feitos, mas de um construir diário na busca de sociedades sustentáveis. Sociedades que incluem a intricada e maravilhosa teia de seres vivos onde suas mais de 30 milhões de diferentes espécies de seres vivos a que denominamos de biodiversidade, nos garante a possibilidade de continuidade da vida no planeta Terra.
Biodiversidade que está ameaçada pela ganância de uma economia baseada na exploração dos seres vivos (e entre eles o homem), na dilapidação dos recursos naturais, onde poucas empresas transnacionais conseguem impor os seus interesses numa escala global, corrompendo governos e legisladores. Temos exemplo no Brasil a Lei das Patentes, que se curva ao permitir a difusão de novos seres vivos criados pelo homem cujos riscos de sua manipulação na natureza ainda são desconhecidos. Biodiversidade que está ameaçada por alguns setores prepotentes ligados à ciência que avalizam sem assinar nenhuma promissória. Afinal, ao contrário dos produtos químicos, os produtos da engenharia genética não podem ser retirados do mercado. Me vem à mente a imagem do Titanic, saudados pelos setores sociais dominantes da época como insubmergível. Um iceberg o afundou. O mundo ficou perplexo. A engenharia genética está aí. Mal conhecemos a ponta deste iceberg.
Então eu me pergunto: o que podemos fazer além de homenagear as pessoas que lutam em defesa da vida em seu sentido mais amplo?
O que podemos fazer além de subir nas árvores?

Link para a matéria do AgirAzul: http://www.agirazul.com/eds/ed13/dayrell1.htm

16 março 2014

Lembrando o desastre ecológio em Hermenegildo

Revista Veja 19 abril 1978- Fotos de Ricardo Chaves

Desastre ecológico em  31 de março de 1978.

HERMENEGILDO, no idioma teutônico, aquele que se sacrifica aos Deuses. Comunicadores e jornalistas dominam a psicologia do “real”, “virtual”, “simulacro”, “ficção”, mas religiosos e militares são os que mais ao fundo vão nessas questões. Hermenegildo era o orgulhoso balneário em Santa Vitória do Palmar a poucos quilômetros do arroio Chuí na fronteira Sul do país, próximo ao Albardão, mas em poucos dias colocou a ditadura do Geisel em polvorosa. Um dia antes do 14º Aniversário do Golpe Militar, mal chamado de Revolução Redentora uma espuma espessa e nauseabunda cobriu as praias e começou a sufocar as poucas pessoas e animais que perambulavam pelas areias e vielas vazias naquele final de verão. Milhares de toneladas de marisco branco, tatuíras morriam sufocados e jaziam desde Cabo Polônio no Uruguai, onde a censura militar impedia qualquer tipo de informação, embora a pesca represente 12% de sua economia. Qual o enigma?

Os Gabinetes dos Ministros da Saúde e Marinha por dever de oficio deveriam contatar as Relações Exteriores, OPAS-OMS, e seu IRPTC em função da fronteira onde estava o problema, mas ditadura é outra coisa.

Revista Veja 19 abril 1978 - Fotos de Ricardo Chaves
O Centro de Estudos Toxicológicos (CET) constituído por professores da UFPel e elite orgânica daquela cidade imediatamente foram por conta própria fazer sua investigação. A análise laboratorial das amostras recolhidas acusou o gás ISOTIOCIANATO DE METILA e os diligentes professores aos poucos dias vieram à imprensa com os resultados, o que não agradou o poder autoritário... Eles foram convocados a visitar o gabinete do Ministro da Saúde Dr. Paulo Almeida Machado instalado emergencialmente em Tramandaí, pois a espuma tóxica e sua atmosfera estavam seguindo para o norte... Ao fazerem finca pé nos seus dados os dois professores universitários foram deixados na Freeway, de madrugada e a pé, sem qualquer condução a não ser andar cinqüenta quilômetros até Porto Alegre ou Osório. Cidadania para quê.

O órgão ambiental gaúcho criado seis anos antes por ordem do Banco Mundial era apenas uma Coordenadoria do Meio Ambiente com meia dúzia de funcionários. Seus carros oficiais circulavam com um adesivo branco com letras vermelhas de nome bem sugestivo: “Operação Santa Vitória” (talvez parodiando o filme O Segredo de Santa Vitória.), mas os técnicos mais requisitados eram oriundos da CETESB de São Paulo pelo currículo e expertise.

A foto do cadáver desconhecido em Hermenegildo foi tirada pelo repórter fotográfico
Jurandir Silveira (CCJ) que consta do livro: "A ditadura de Segurança Nacional
no Rio Grande do Sul  (1964 - 1985): História e Memória Voll III:
Conexão Repressiva e Operação Condor"
Para complicar o caso nas areias da praia surgiu o cadáver de um jovem de corpo atlético (sem a cabeça) que foi recolhido à morgue de Santa Vitória. Não era uma coisa rara ou muito anormal, pois a ditadura Argentina realizava os vôos da morte com os seus opositores e as correntes marítimas os traziam para Uruguai e em função da maré equinocial de 30 de março fez chegar ao Brasil. Ele foi autopsiado pelo Professor da UFRGS Dr. Djalma Johann e enterrado como desconhecido.

O fato mais estranho é que os mariscos mesmo depois de uma semana de mortos não tinham cheiro de podre, nem sequer decomposição, como se tivessem sido esterilizados.

O amigo Lutzenberger ao retornar do local, trouxe uma tosse estranha e nos pediu que fôssemos lá, pois afirmava que era veneno químico e o governo começava a articular que a causa era um fenômeno natural denominado “Maré Vermelha” causada por Dinoflagelados.

Revista Veja - 26 abril  1978
Fomos no avião do governo do Estado. Em Hermenegildo haviam dezenas de agentes do SNI. No local vimos que todas as árvores, arbustos e plantas de hortas caseiras expostas ao vento vindo da praia estavam dessecados. Não era fitotoxicidade pela proximidade do mar. Plantas de alta resistência como ciprestes, pinos e até a mamona estavam ressecados ou melhor dito dessecados por uma substancia química muito agressiva. Colhemos amostras vegetais e também mariscos para análise no laboratório Central do Ministério da Delegacia Federal do M. da Agricultura. Seguimos as pegadas do pessoal do CET. Sim, nas análises havia resíduos de Isotiocianato de Metila. Contudo, os efeitos daquele tóxico jamais teriam condição de tal impacto sobre uma área tão grande, desde Cabo Polônio até Tramandaí. Embora a UFRGS emitisse o laudo conclusivo de “maré vermelha” por Dinoflagelados, continuamos a investigar...

A solução do enigma não estava nas amostras analisadas mais há mais de duzentos quilômetros Uruguai adentro em Cabo Polônio. Ali em 13 de Abril de 1971 afundou o primeiro navio cargueiro especial para o transporte de cargas químicas de fabricação nacional “Taquari” de propriedade do Lóide Brasileiro, consta que batizado pela Dona Scylla esposa do Garrastazu Medice. Ele levava uma carga química da Flórida (EUA) para Buenos Aires para a empresa Siam Di Tella, com Oxido de Propileno; Oxido de Etileno, Etilenglicol e Etilenoimina (substância homogeinizadora de pigmentação na pintura de eletrodomésticos, geladeiras, maquinas de lavar, automóveis etc.), pertencente ao grupo das AZERIDINAS, muitíssimo tóxica.

O navio Taquari partido ao meio - reprodução de Sebastião Pinheiro

A história do naufrágio do Taquari é insólita. Ele naufragou no Cabo Polônio com mar calmo em uma madrugada e vinha com tal velocidade que subiu as rochas e ficou totalmente fora d’água na “Ilha Rasa” em área com um Farol.

O estranho é que a legislação internacional não foi cumprida e não houve guarda para evitar roubos e pirataria no navio acidentado. Embora a carga fosse altamente tóxica, pois tinha soda cáustica, Mercúrio e outros produtos químicos além da carga química mortal já nominada. O tempo passou e o navio ficou esquecido. Cabe a pergunta ele estava assegurado? Foi paga a apólice? E houve descarrego no Instituto de Resseguros do Brasil?

Revista Veja - 10 de maio de 1978- parte 1

Em uma ditadura é muito difícil e perigoso fazer investigação, ainda mais quando buscando os jornais se verifica que um dos marinheiros do Taquari “morreu” em Porto Alegre “atropelado” dentro de um taxi...

Revista Veja - 10 de maio de 1978 - parte 2
O navio que fora lançado ao mar no ano anterior, em sua derradeira viagem alterou sua rota e foi levado sorrateiramente ao porto do Rio de Janeiro, onde recebeu uma volumosa carga colocada no convés coberta com plástico e seguiu viagem. Pessoas bem informadas diziam que o marinheiro morto no “acidente” em Porto Alegre havia denunciado isso minutos antes de seu acidente-decesso.

De um jornalista gaúcho e outros uruguaios escutei: - A ditadura civil-militar recebia muito apoio da ditadura brasileira. O carregamento clandestino de armas levados ao convés no Rio de Janeiro seria desembarcada clandestinamente em um porto natural com sinalização passada ao comandante... Os faróis internacionalmente são identificados desde os navios pelos tempos de duração da luz e espaço escuro.

Agentes de inteligência do MLN-T tinham a informação da desova. Infiltraram seus agentes e mudaram o tempo de luz e escuro dos faróis para que desde o navio não pudesse haver suspeitas e o navio foi conduzido através do código de luz/escuro para as pedras no Cabo Polônio naufragando na praia da Ilha Rasa, tendo a carga de convés aprendida pelos sediciosos. Razão pela qual nenhuma das duas ditaduras assumiu o risco de aproximar-se do navio.

Lutzenberger em seu escritório. Foto do Right Livelihood Award Foundation Archive
Mas e o ISOTIOCIANATO DE METILA? Todas as cargas de ETILENOIMINA são misturadas ao Isotiocianato de metila que atua como um antidetonante para maior segurança no seu transporte. Os óxidos de etileno e propileno são poderosos esterilizantes, por isso os mariscos não apodreciam mesmo trinta dias depois de mortos. O eltilenoglicol foi o responsável pela espuma espessa e a etilenoimina o agente mortal por sua altíssima toxicidade.

Sete anos depois do naufrágio uma maré equinocial (ressaca) no final do verão rompeu os tonéis de oxido de propileno e oxido de etileno, etilenoglicol e etilenoimina liberando a espuma tóxica por mais de mil quilômetros. Um navio oceanográfico da Dow Chemicals esteve frente a Cabo Polônio fazendo suas investigações sigilosamente depois de Hermenegildo... Porque a DOW responsável pelos tonéis vermelhos não alertou a OPAS-OMS IRPTC?

Jornalista da revista alemã Stern: "Em todo o mundo é assim.
No final, quem acaba mesmo levando a culpa é a natureza".
Revista Veja - 26 abril 1978
Uma técnica, suspeito que agente de informações destruiu as amostras coletadas e que estavam em análise, mas o triste foi o “Livro Branco” escrito sobre o que ocorreu em Hermenegildo. O Lutz me emprestou uma cópia xerox. Na Capa constava o título: “Hermenegildo: Um agravo inusitado à Saúde”. O Lutz com sua irreverência riscou a palavra Saúde e escreveu com grafite à Inteligência. Sim, “um agravo inusitado à Inteligência”.

Uma professora argentina que lecionava na Oceanografia (FURG) em Rio Grande veio a público trinta anos depois dizer que jamais existiu maré vermelha em Hermenegildo. Várias entidades comemoraram os trinta anos com eventos e lembranças ecológicas, ambientalistas.

Cartazes "subversivos"
Polícia Federal apreendeu os cartazes do desastre ecológico em Hermenegildo, feitos
pela ambientalista Magda Renner. - Revista Veja  - 21 de junho 1978
Minha tristeza aumentou, pois em nenhuma das manifestações encontrei referência critica ao contexto da situação autoritária envolvendo aquele evento, os anseios cidadãos para esclarecê-lo e respeito à cidadania.

Em minha mediocridade sabia que devia ser guardada uma amostra do cadáver autopsiado para as análises de ADN no futuro que possibilitariam sua identificação e luz para uma das muitas famílias dos “Desaparecidos”.

Com a mesmo ênfase e respeito agradeceria as autoridades uruguaias jogarem luzes sobre o naufrágio do Taquari e assuntos correlatos. Será que há registro sobre o “Taquari” nas Seguradoras Marítimas Britânicas?


Texto de Sebastião Pinheiro, postado com autorização do autor.

Sebastião Pinheiro é engenheiro agrônomo, engenheiro florestal e ex-analista do Laboratório de Resíduos de Agrotóxicos do Meio Ambiente, e funcionário do Núcleo de Economia Alternativa (NEA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Membro do Conselho Superior e ex-vice- presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural - AGAPAN.

24 abril 2013

AGAPAN: 42 anos em defesa da vida

No dia 27 de abril a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural - AGAPAN - completa 42 anos.


07 janeiro 2013

Ecologista Augusto Carneiro

90 anos com muitas histórias para contar.

Carneiro completou 90 anos em 31 de dezembro - Foto: Cesar Cardia
O ecologista Augusto Cesar Carneiro completou 90 anos no dia 31 de dezembro, mas no dia 5 de janeiro ele foi merecidamente homenageado no local onde ele a muitos anos comparece tradicionalmente: em sua banca na Feira Ecológica da Redenção, onde vende livros e revistas que tem por tema a ecologia, esclarece a população sobre assuntos ligados ao Meio Ambiente e conta muitas histórias sobre o surgimento do movimento ecológico gaúcho, do qual ele é um dos pioneiros.

Augusto Carneiro e Lutzenberger - Foto: arquivo Agapan

“Seu Carneiro”, como muitos o chamam, é a memória viva do movimento ambientalista brasileiro. Nasceu na rua Vasco da Gama e diz que entrou na luta ecológica “por acaso”, lendo as crônicas de Henrique Roessler em jornais. No início dos anos 70 foi apresentado por Hilda Zimmermann, também uma pioneira na defesa da natureza, a José Lutzenberger e em abril de 1971 criaram a pioneira Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – AGAPAN.

Colegas da AGAPAN comemorando com Carneiro - Foto: Cesar Cardia

Logo no início da AGAPAN Augusto Carneiro mostrou ser um dos personagens mais importantes para a difusão das ideias preservacionistas. Num tempo que não existiam as modernas “redes sociais” ele inventou algo fundamental para a divulgar as ideias da entidade, escrevia cartas e bilhetinhos que enviava pelo correio para pessoas que ele julgava que poderiam se interessar pelo tema. Assim fazendo, despertou o interesse para a defesa da natureza de pessoas tanto da capital como do interior de nosso estado. Também enviava correspondências para jornais, políticos, professores e personalidades alertando para a necessidade de proteção ao ambiente natural, muitas vezes com resumos de textos de José Lutzenberger.

TVE fez matéria com o ecologista - Foto: Cesar Cardia

Para nós que atuamos pela preservação das árvores da Rua Gonçalo de Carvalho, o “Seu Carneiro” também foi muito importante. No final de 2005 tínhamos muitas dificuldades em divulgar nosso movimento e mesmo com o apoio já formalizado da AGAPAN, NAT-Brasil e Fundação Gaia, atuávamos mais entre as Associações e Movimentos de Moradores de Bairros, não entre os ambientalistas. Certo dia decidimos distribuir nossos panfletos na Feira Ecológica da Redenção e o Haroldo Hugo, um dos integrantes do Movimento, sugeriu passarmos na banca de livros do “Seu Carneiro” para pedir apoio e alguns conselhos. A receptividade foi a melhor possível, pediu desculpas por não poder nos acompanhar por não poder deixar a banca, mas ficou com boa quantidade de panfletos para não apenas distribuir como para explicar melhor o que não estava impresso no panfleto.
Carneiro e sua banca de livros - Foto: Cesar Cardia

Naquele dia nós tivemos certeza que mais pessoas entenderam nossa luta pela preservação das árvores da Gonçalo e que a vitória, sim, era possível.

Muitos foram levar sua homenagem ao pioneiro ecologista - Foto: Cesar Cardia

27 dezembro 2012

90 anos do ambientalista Augusto Carneiro

Augusto Carneiro em sua banca de livros na Feira Ecológica - 15/8/2009
No próximo dia 31 de dezembro o ambientalista Augusto Carneiro completará 90 anos com muitas histórias para contar.

Carneiro e sua esposa Rosalina, que faleceu em abril deste ano, na Feira Ecológica
- agosto de 2009

"Seu Carneiro", como é conhecido, colaborou na luta pela preservação das árvores da Rua Gonçalo de Carvalho, quando distribuiu em sua banca de livros sobre ecologia (na Feira Ecológica da Redenção) nossos panfletos para esclarecer a população e também pedindo uma nova Audiência Pública para discutir o projeto, no final de 2005.
Carneiro foi um dos fundadores da AGAPAN em 1971
 
Texto, de outubro de 2007, da jornalista Clarinha Glock:  
O ambientalista Augusto Carneiro e suas histórias 
Carneiro e Lutzenberger -
a criação da primeira Associação Ambientalista brasileira - arquivo AGAPAN
A pasta de couro surrada o acompanha há anos, desde que era membro do Partido Comunista (do qual foi expulso depois de denunciar as atrocidades cometidas por Stalin). Nela, Augusto César Cunha Carneiro carrega a vida em papéis: são artigos seus e do amigo José Lutzenberger, companheiro e mestre na luta em defesa do meio ambiente. De vez em quando, leva também um dos livros e várias das fotos de parques, praças e árvores que ajudou a plantar e a implantar e que hoje compõem parte de sua rica biblioteca. Na forma de xerox, suas idéias são espalhadas em panfletos distribuídos em eventos e na Feira Ecológica da Rua José Bonifácio, em Porto Alegre, em uma barraca de livros à venda, aos sábados pela manhã.

Na Feira Ecológica, pedindo o Veto ao Novo Código Florestal
Carneiro é um daqueles velhinhos de cabelos brancos e coração a 100 por hora. Tem 84 anos e uma energia invejável. Já foi contador, advogado, funcionário público e naturista. Seu currículo inclui a fundação da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) e da Pangea Associação Ambientalista. Ele é membro do Conselho da Fundação Gaia, e já atuou no conselho do DMAE.
Participando da homenagem aos 40 anos da AGAPAN na Câmara Municipal - Foto: CMPA
Tive o privilégio de ouvi-lo contar sua vida e pude registrar suas histórias em DVD. O trabalho, feito por uma cinegrafista amadora como eu, talvez deixe a desejar em técnica, mas é recheado de tanta vida, que a imagem por vezes sem foco perde importância diante do conteúdo. As conversas que tive com Carneiro renderam cinco DVDs que foram doados à Fundação Gaia. Cada pedaço da memória ali registrado ajuda a recompor as aventuras e as lutas dos ambientalistas dos anos 70 para cá. Estão ali as histórias da criação da Agapan, do Parque do Lami, do estudante Dayrell que subiu numa árvore para evitar que fosse derrubada (o vídeo Carneiro e Dayrell, disponível no YouTube, dá uma amostra).
Em 1975 o estudante Carlos Dayrell
sobe em uma árvore para impedir seu corte - Foto: arquivo AGAPAN
Fiel escudeiro de Lutzenberger, mas nem sempre tão lembrado como ele, Carneiro foi homenageado durante o 2º Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental realizado de 10 a 12 de outubro de 2007 no Salão de Atos da Ufrgs, em Porto Alegre. Recebeu uma placa de reconhecimento dos ecojornalistas na abertura do encontro e o vídeo com um resumo de suas histórias no encerramento.
Carneiro participando de uma reuni~eo do Conselho Superior da AGAPAN em 2012
Mas Carneiro ainda tem muito pela frente, não pode parar. Em sua casa ainda mantém um enorme arquivo sobre meio ambiente, que aos poucos vai repassando para entidades como a Fundação Gaia e o Núcleo Amigos da Terra. São pastas e mais pastas com recortes de jornais antigos, artigos de José Lutzenberger, Henrique Roessler, além de livros que recontam a história de parques, praças e da cidade de Porto Alegre. Material precioso de pesquisa, sua angústia no momento é como organizar e armazenar tudo isso em um só lugar, com o devido respeito, para que a história não se perca.
Participando de Audiência Pública para apoiar o projeto dos "Túneis Verdes", em 2012
Palestrando em 1995 na AGAPAN - Foto: arquivo  AGAPAN
Entrevista em vídeo, pela jornalista Clarinha Glock:

Está prevista uma homenagem ao ambientalista Augusto Carneiro no dia 5 de janeiro, junto a sua banca de livros na Feira Ecológica da Redenção.

*As fotos sem créditos de autoria são de Cesar Cardia/Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho

20 outubro 2012

Admirável palestra de José Lutzenberger em 2002

"Nós precisamos aprender a não fazer certas coisas que nós gostaríamos de fazer, senão a gente acaba com tudo. E hoje nós estamos acabando com tudo..."  

(José Lutzenberger)


Palestra de Jose Lutzenberger - Fundação Gaia - proferida no encontro do Grupo Ecosust em Garopaba, Santa Catarina - 7 abril de 2002.


Parte 2 da palestra


Parte 3 da palestra

"A sociedade em que nós vivemos hoje, a sociedade tecnológica, acha que tudo que é factível deve ser feito, quando muitas coisas nós não devemos fazer."

20 maio 2012

"Veta TUDO, Dilma" na Feira Ecológica

Agricultores ecológicos aderem ao "Veta Tudo, Dilma!" - Foto: Cesar Cardia
Augusto Carneiro, um dos fundadores da AGAPAN - Foto: Cesar Cardia
Muitas bancas exibiam o panfleto "Veta Tudo, Dilma" - Foto: Cesar Cardia
"Sinfonia Inacabada: A vida de José Lutzenberger", da jornalista
e escritora Lilian Dreyer, exposta em uma das bancas da Feira Ecológica.

03 maio 2012

Morre uma pioneira do Movimento Ambientalista

Hilda Zimmermann na Feira Ecológica da Redenção, em 11/6/2011,
quando ocorreu um protesto contra a destruição da sede da AGAPAN.  - Foto: Cesar Cardia
Hilda Zimmermann

Faleceu hoje, aos 89 anos, Hilda Emma Wrasse Zimmenrmann.

Fundadora da Agapan, da Ação Democrática Feminina Gaúcha (ADFG) e da Associação Nacional de Apoio ao Índio, Hilda Zimmermann tem no seu currículo uma infinidade de campanhas pela natureza. Destacam-se a defesa dos índios, a Operação Hermenegildo e a luta contra os agrotóxicos. Esta última, ocorrida na década de 70, deflagrou-se a partir das denúncias de José Lutzenberger.

À época, Lutzenberger trabalhava na Bayer e testemunhou plantações contaminadas em todas as partes do mundo. O resultado da campanha foi a Lei dos Agrotóxicos, aprovada pela Assembléia Legislativa proibindo a utilização dos produtos mais perigosos. Hilda Zimmermann também participou de diversas atividades de educação ambiental. Principalmente da defesa de árvores e parques, como o Parcão de Porto Alegre.

Com quatro décadas de atividades em prol do meio ambiente, Hilda relembra outro episódio que mostra seu perfil de lutadora e amante da natureza: “Certa vez, com a ADFG, fomos ver as pedreiras de Itapuã, que na época eram exploradas por um ministro. Quando chegamos, junto com a imprensa, os homens estavam martelando. Eu, então, botei a mão na cintura e disse: "Parem de martelar!" O homem ficou estático… saiu na primeira página do jornal uma foto, em que o homem está com cara de apavorado e eu com a mão na cintura : "Quando os ecologistas botam a mão na cintura, pára tudo".
Fonte: Movimento Roessler para Defesa Ambiental

26 março 2012

Aniversário de Porto Alegre

240 anos de Porto Alegre
Mapa de Porto Alegre - 1839

Porto Alegre é a capital do estado mais meridional do Brasil, o Rio Grande do Sul. Com uma área de quase 500 km², possui uma geografia diversificada, com morros, baixadas e um grande curso d'água, o Guaíba, que desde a criação da cidade é considerado um rio, mas atualmente é considerado lago por alguns estudiosos desde a publicação do Atlas Ambiental de Porto Alegre.  A polêmica se o Guaíba é rio ou lago está longe de acabar, com acadêmicos usando fortes argumentos para defenderem tanto a tese de lago como a de rio. Essa é uma boa amostra de como os assuntos são polarizados nessa cidade. Muitas entidades ambientalistas e defensoras da cidadania entendem que o fato do Guaíba ser considerado lago é uma boa "desculpa" para a indústria da construção civil obter maiores lucros, pois nossa legislação atual protege áreas maiores nas orlas de rios que de lagos!
A cidade constituiu-se a partir da chegada de casais açorianos em meados do século XVIII. No século XIX contou com o influxo de muitos imigrantes alemães e italianos, recebendo também espanhóis, africanos, poloneses e libaneses. Desenvolveu-se com rapidez, e hoje abriga mais de 1,4 milhões de habitantes. A cidade enfrenta muitos desafios, entre eles a grande população ainda vivendo em condições de pobreza e sub-habitação, um dos maiores custos de vida no Brasil, deficiências sérias no tratamento de esgotos, muita poluição e degradação de ecossistemas originais, índices de crime elevados (embora indicando uma tendência de queda e crescentes problemas de trânsito. Por outro lado, ostenta mais de 80 prêmios e títulos que a distinguem como uma das melhores capitais brasileiras para morar, trabalhar, fazer negócios, estudar e se divertir. Foi destacada em anos recentes também pela ONU como a Metrópole nº1 em qualidade de vida do Brasil por três vezes; como possuindo um dos 40 melhores modelos de gestão pública democrática pelo seu pioneiro Orçamento Participativo, e por ter o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) entre as metrópoles nacionais. Dados do IBGE a apontaram em 2009 como a capital brasileira com a menor taxa de desemprego, a empresa de consultoria britânica Jones Lang LaSalle a inclui em 2004 entre as 24 cidades com maior potencial para atrair investimentos no mundo e figura na lista da Pricewaterhouse Coopers entre as cem cidades mais ricas do mundo. Porto Alegre é uma cidade influente no cenário global, recebendo a classificação de cidade global "gama -", por parte do Globalization and World Cities Study Group & Network (GaWC). Além disso Porto Alegre é uma das cidades mais arborizadas e alfabetizadas do Brasil, é um polo regional de atração de migrantes em busca de melhores condições de vida, trabalho e estudo, e tem uma infraestrutura em vários aspectos superior à das demais capitais do Brasil. Foi manchete internacional quando sediou as primeiras edições do Fórum Social Mundial e foi escolhida recentemente como uma das sedes da Copa do Mundo de Futebol em 2014. Também tem uma cultura qualificada e diversificada, com intensa atividade em praticamente todas as áreas das artes e das ciências, muitas vezes com projeção internacional, além de possuir ricas tradições folclóricas e um significativo patrimônio histórico em edificações centenárias e vários museus. No esporte Porto Alegre também tem grande destaque, como seus dois maiores clubes de futebol, Grêmio e Internacional, detendores de inúmeros títulos nacionais e internacionais, sendo inclusive campeões mundiais de clubes.
Greve geral em 1917 - Rua da Praia

A cidade é muito conhecida por suas politização e polarização extremada. Já em 26 de abril de 1821 eclodiu uma primeira grande manifestação pública de contestação política na cidade, quando a Câmara, desobedecendo a determinações da Constituição Portuguesa que havia sido jurada pelo Príncipe Regente Dom Pedro, elegeu uma junta ministerial, que governou de 22 de fevereiro até 8 de março de 1822.
Uma das características principais de Porto Alegre é que para ser considerado portoalegrense não é necessário ser nascido em Porto Alegre, inúmeras pessoas são consideradas símbolos de Porto Alegre sem terem nascido na cidade. Isso faz parte da cultura gaúcha, estado que recebeu grandes contingentes de migrantes de outros países e também do Brasil. Na época da Revolução Farroupilha, também conhecida como Guerra dos Farrapos, que por dez anos (1835 - 1845) tornou o Rio Grande um país independente do Império do Brasil, chamado República Rio-Grandense. Naquela ocasião muitos dos principais líderes da República Rio-Grandense não eram gaúchos, como o mineiro Domingos José de Almeida, os cariocas José Mariano de Matos, Padre Chagas e João Manuel de Lima e Silva, o paulista Bento Manuel Ribeiro, os italianos Giuseppe Garibaldi e Tito Livio Zambeccari, o alemão Otto Heise, a catarinense Anita Garibaldi, o baiano Daniel Gomes de Freitas (ex-ministro da Guerra da "Sabinada" baiana, Gomes de Freitas é um dos signatários do tratado de paz que deu fim aos dez anos de lutas). O próprio Hino da República Rio-Grandense, hoje Hino do Estado do Rio Grande do Sul, foi uma composição do maestro Joaquim José de Mendanha, nascido em Minas Gerais.
Em 1975 o mineiro Carlos Alberto Dayrell, ativista da AGAPAN, evita o corte de uma árvore ao subir nela. Por volta das 14 horas, cerca de 500 pessoas já estavam em torno da árvore.

Porto Alegre também tem grande importância na área da ecologia e ambientalismo, o portoalegrense José Lutzenberger foi um agrônomo e ecologista reconhecido internacionalmente que juntamente com outros ecologistas locais fundou a AGAPAN em 1971, a pioneira entidade latino-americana em defesa do Ambiente Natural. Também foi pioneira ao criar a primeira Secretaria Municipal de Meio Ambiente no Brasil e a primeira reserva biológica municipal brasileira: a Reserva Biológica do Lami.
Mensagem do escritor e acadêmico Moacyr Scliar no vídeo "Não ao Pontal do Estaleiro"
A Rua Gonçalo de Carvalho foi a primeira via urbana declarada Patrimônio Ambiental em uma cidade latino-americana, em 5 de junho de 2006. Por ocasião da polêmica aprovação pela Câmara Municipal da lei que alterava o regime urbanístico na Ponta do Melo (projeto Pontal do Estaleiro) para beneficiar um projeto imobiliário na orla do Guaíba, a pressão popular levou o então prefeito José Fogaça a atender o pedido do Movimento em Defesa da Orla do Rio Guaíba a chamar uma Consulta Pública para aprovar ou derrubar a lei municipal. O resultado, em 23 de agosto de 2009, foi que mais de 80% dos eleitores votaram NÃO. A permissão votada pela Câmara para uso residencial na Ponta do Melo foi derrubada e não mais poderão construir espigões na área!



(Com Wikipédia e fontes diversas)

22 dezembro 2011

23 anos sem Chico Mendes

No dia 22 de dezembro de 1988 o seringueiro, sindicalista e ativista ambiental Francisco Alves Mendes Filho, mais conhecido como Chico Mendes, foi assassinado em Xapuri, Acre.


Em 22 de dezembro de 1988, exatamente uma semana após completar 44 anos, Chico Mendes foi assassinado com tiros de escopeta no peito na porta dos fundos de sua casa, quando saía de casa para tomar banho. Chico anunciou que seria morto em função de sua intensa luta pela preservação da Amazônia, e buscou proteção, mas as autoridades e a imprensa não deram atenção.
Após o assassinato de Chico Mendes mais de trinta entidades sindicalistas, religiosas, políticas, de direitos humanos e ambientalistas se juntaram para formar o "Comitê Chico Mendes". Eles exigiam providencias e através de articulação nacional e internacional pressionaram os órgãos oficiais para que o crime fosse punido. Em dezembro de 1990, a justiça brasileira condenou os fazendeiros Darly Alves da Silva e Darcy Alves Ferreira, responsáveis por sua morte, a 19 anos de prisão. Darly fugiu em fevereiro de 1993 e escondeu-se num assentamento do INCRA, no interior do Pará, chegando mesmo a obter financiamento público do Banco da Amazônia sob falsa identidade. Só foi recapturado em junho de 1996. A falsidade ideológica rendeu-lhe uma segunda condenação: mais dois anos e 8 meses de prisão.
 

 Chico Mendes – Eu Quero Viver (1989)
Direção: Adrian Cowell e Vicente Rios
Duração: 40 minutos
Sinopse: Com registros feitos entre 1985 e 1988, a equipe acompanhou Chico Mendes na organização dos seringueiros em defesa da floresta, no nascimento da Aliança dos Povos da Floresta e na luta pela demarcação das primeiras Reservas Extrativistas na Amazônia. Mostra, ainda, a trama armada para seu assassinato e as repercussões no Brasil e no mundo. 

"No começo pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a Floresta Amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade."

Texto postado no Blog sobre os 20 anos de morte de Chico Mendes:
http://goncalodecarvalho.blogspot.com/2008/12/20-anos-da-morte-de-chico-mendes.html

07 junho 2011

Dia 6 de junho: destruída a sede da AGAPAN em Porto Alegre

Um dia após o Dia Mundial do Meio Ambiente, destruição da sede da mais antiga ONG ambientalista do Brasil.
Foto: Bruno Alencastro/Correio do Povo
A Agapan, fundada por José Lutzenberger, Augusto Carneiro, Hilda Zimmermann e Flávio Lewgoy, entre outros, é a primeira organização ecológica do Brasil e da América Latina, cujo aniversário foi comemorado no dia 27 de abril.
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Na tarde desta segunda-feira, 6, logo após o Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado no domingo, 5, integrantes da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) foram surpreendidos com a notícia de destruição de sua Sede, situada na esquina das avenidas Aureliano de Figueiredo Pinto e Praia de Belas. Com alvará provisório, concedido pela Secretaria Municipal de Indústria e Comércio (Smic), a Peruzzato & Kindermann contratou a empresa de demolição Gilberto Bexiga, que invadiu uma área pública e destruiu o patrimônio da Agapan, que tem cessão de uso expedido pela própria Prefeitura à Agapan por 20 anos, a contar do início de 2002. “Tínhamos uma sede construída, com telhado verde e onde desenvolvíamos testes de tijolo ecológico, feito a partir de argila”, diz José Guilherme Fuentefria, arquiteto e conselheiro da Agapan, responsável pelo projeto de construção de uma sede, com base em técnicas sustentáveis, que estava em finalização.
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Leia mais aqui: http://agapan.blogspot.com/2011/06/destruicao-da-sede-da-agapan-gera.html