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| Dayrell em 1975: +VERDE -CONCRETO - Foto: Carlinhos Rodrigues/ZH |
Ativista que virou símbolo nacional na luta pela defesa das árvores visitará a Rua Gonçalo de Carvalho
Carlos Alberto Dayrell, o jovem ativista mineiro da AGAPAN que em plena ditadura - 1975 - subiu em uma árvore para evitar seu corte, está no Rio Grande do Sul. Veio participar de um seminário na Unisinos e aproveitará para visitar
parentes, matar as saudades dos companheiros da Agapan e também visitar a
"rua mais bonita do mundo".
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A placa alusiva ao decreto que preservou o Túnel Verde foi colocada no local onde
ocorreram muitas manifestações em defesa da Rua. Bem no acesso ao shopping!
Foto: Cesar Cardia/Amigos da Gonçalo |
Na sexta-feira, 9 de maio, irá na Rua Gonçalo de Carvalho às 17h. O encontro foi marcado no local da placa alusiva ao tombamento da Rua.
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Alunos do Colégio Bom Conselho na Rua Gonçalo de Carvalho
em 5 de junho de 2012 - Foto: Cesar Cardia/Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho |
Depois da visita ao Túnel Verde da Gonçalo ele participará de um bate-papo - aberto a todos que queiram participar - que está sendo organizado pela Agapan - Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural - em local ainda não definido.
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| Dayrell e seus colegas na árvore em plena ditadura militar - Foto: Arquivo AGAPAN |
Matéria do site AgirAzul, de 1998:
AgirAzul 13
HISTÓRIA
Carlos Alberto Dayrell é Cidadão de Porto Alegre
O então estudante que salvou a Tipuana na frente da Faculdade de
Direito da UFRGS, em 1975, recebeu o título de representantes da
Câmara de Vereadores que foram à Faculdade de Direito. Ele não
abandonou a luta ecológica.
Por Roberto Villar
Carlos Alberto Dayrell recebeu o título de Cidadão Honorário de
Porto Alegre. Lembram dele? Na manhã do dia 25 de fevereiro de 1975,
uma grande multidão se formou na frente da Faculdade de Direito da
UFRGS, em uma das principais vias da cidade, a avenida João Pessoa.
Funcionários da Secretaria Municipal de Obras estavam cortando
dezenas de árvores para construir o viaduto Imperatriz Leopoldina.
Um estudante de engenharia elétrica, sócio da Agapan - Associação
Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, subiu numa Tipuana (Tipuana
tipu) para impedir o trabalho das motosserras.
Ela está lá até hoje. O protesto terminou na delegacia de polícia
política. Foi notícia nos principais jornais. A foto ganhou destaque
de capa no diário O Estado de São Paulo. Naquela época, impedir o
corte de árvores era crime contra a segurança nacional. "De minha
parte, colocaria como marco inicial de um movimento ecopolítico no
Brasil o caso Carlos Dayrell", escreveu Alfredo Sirkis no
apêndice da edição brasileira do livro Rumo ao Paraíso — A história
do movimento ambientalista, de John McCormick.
Mais do que um símbolo, Dayrell é um herói sempre citado pelos
ecologistas gaúchos. "O protesto do Dayrell foi o fato que mais
sacudiu a opinião pública na época", reconhece o primeiro presidente
da Agapan, José Lutzenberger, atual mentor e dirigente da Fundação
Gaia.
Por recomendação médica, e por receio de alguma represália por
agentes do Governo, em 1976 o jovem estudante mineiro, natural de
Sete Lagoas, fugiu do clima frio e úmido da capital gaúcha e voltou
para Minas Gerais. Ele nunca mais foi visto em Porto Alegre. Ficaram
apenas as histórias do protesto que marcou o início do movimento
ecológico brasileiro.
"O protesto do Dayrell foi um marco para nós. Naquele dia, toda a
imprensa do Rio Grande do Sul e do Brasil nos conheceu", recorda o
presidente da Pangea, Augusto Carneiro, fundador da Agapan, naquela
época militando nesta entidade.
Dias antes do protesto, Dayrell tinha viajado para Torres com um
grupo de ambientalistas da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente
Natural, criada em 1971. O corte das árvores no Parque da Redenção
já era assunto dos ecologistas. Carneiro recorda que numa reunião
José Lutzenberger chegou a sugerir que os jovens subissem nas
árvores para impedir a derrubada.
Dayrell estava presente, ouvindo com atenção. Quem mandou
derrubar as árvores para construir o viaduto foi o prefeito Thompson
Flores. Lutzenberger não esquece: — Ele mandou derrubar as árvores
durante as férias, pensando que não iria haver estudantes lá.
Esqueceu que era dia de matrícula. Surpreso, o prefeito argumentou
que iria derrubar 25 árvores para melhorar o tráfego, mas estava
plantando 20 mil nos bairros.
Aí, preparamos um manifesto que começava mais ou menos assim: "Argumentar que não tem importância derrubar 25 árvores velhas,
porque estão sendo plantadas 20 mil novas, seria como dizer não
importa que morra o nosso velho e sábio prefeito, estão nascendo
tantos bebês".
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A placa em homenagem a Dayrell na Faculdade de Direito da UFRGS
Foto em 15/10/2011: Cesar Cardia/Amigos da Gonçalo de Carvalho |
O atual diretor da Faculdade de Direito da Ufrgs, professor
Eduardo Kroeff Carrion, conselheiro da Agapan, decidiu fazer uma
homenagem a Carlos Dayrell. No dia 20 de novembro, Carrion reuniu em
seu gabinete representantes de importantes entidades ecologistas de
Porto Alegre — Agapan, Pangea, Coolméia, e União pela Vida, que
resolveram co-organizar os eventos e solicitar ao vereador Gerson
Almeida (PT) fosse encaminhado ao Dayrell o título de Cidadão de
Porto Alegre.
Quase 23 anos depois, Dayrell participou de dois atos públicos no
dia 28 de abril de 1998, um dia após a data do aniversário de 27
anos da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural.
Foi implantada num dos pilares da cerca da Faculdade de Direito,
em frente à árvore salvada, placa de metal para lembrar à
posteridade o protesto de 1975. Carlos Dayrell também recebeu
de representantes da Câmara de Vereadores o título de Cidadão
Honorário de Porto Alegre, proposto por Almeida, em sessão realizada
no auditório da própria Faculdade.
Carlos Alberto Dayrell foi localizado em Montes Claros, no norte
de Minas Gerais. Está com 44 anos e três filhos. O mais velho,
Luciano, com 16 anos, e a mais nova, Luana, com 10, além de sua mãe,
a simpática Dona Alexandrina, também vieram à Porto Alegre.
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| Matéria da revista Veja em 1975 |
Após o episódio, trocou a engenharia elétrica pela agronomia e
está trabalhando como consultor do Centro de Agricultura
Alternativa. Nesta entrevista, Dayrell fala do seu trabalho em
Minas Gerais e recorda detalhes do mais importante protesto
ecológico de Porto Alegre.
O que você está fazendo em Minas Gerais?
Eu trabalho numa entidade chamada Centro de Agricultura
Alternativa. É uma Organização Não-Governamental que presta
assistência a pequenos produtores rurais, dentro desta proposta de
desenvolver uma agricultura mais sustentável.
Então você não abandonou a luta
ecológica?
Realmente. Naquela época do protesto em Porto Alegre, era muito
um sentimento que a gente tinha de preocupação com a vida. E este
sentimento vem se aprofundando. Hoje, a gente tenta de outras
formas, continuar esta busca por uma vida mais digna e sustentável,
não só pra gente, mas para as gerações futuras.
Por que você subiu naquela árvore em 1975?
Naquela época eu morava em Porto Alegre e entrei na Associação
Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural. Eu morava na Casa do
Estudante, na frente da Faculdade de Direito. Naquele dia eu estava
saindo de casa para fazer minha matrícula na Universidade e fiquei
chocado com o que vi. Um monte de árvores já no chão. Me chamou
muito a atenção porque todo mundo passava indiferente. Eram árvores
belas, que davam uma sombra muito agradável. Foi algo meio
instintivo. Como você fez para subir tão alto naquela árvore? Eu
tava na rua pensando o que fazer... aí passou um amigo meu, o Marcos
Sarassol. A árvore realmente era muito alta. Os funcionários da
Prefeitura estavam utilizando uma escada para cortar os galhos, e
depois o tronco. Eu pedi a escada emprestada e coloquei na primeira
árvore.
Quanto tempo você ficou lá em cima?
Eu nem lembro direito. Eu sei que era de manhã, pois eu iria
fazer minha matrícula na Faculdade. A gente ficou lá até umas três
ou quatro horas da tarde. O pessoal passava lanche pra gente. Logo
uma multidão ficou em volta. Teve dois companheiros que subiram pra
me apoiar, logo no começo, o Marcos e a Teresa Jardim.
Qual foi o papel da imprensa naquele episódio?
Se não fosse a imprensa naquele momento, talvez o pessoal teria
derrubado a gente. Tinha jornal, televisão e rádio lá. O fato foi
sendo divulgado e a população foi chegando em volta. Porto Alegre
estava vivendo naquela época um processo de transformação
importante. Era uma cidade que estava crescendo o número de carros,
as ruas precisavam ser ampliadas. Mas havia muita preocupação com a
qualidade do ambiente urbano. De certa forma, foi uma reflexão. Eu
lembro que saiu muita matéria sobre a questão do desenvolvimento e
da qualidade de vida.
Quanto tempo você morou em Porto Alegre?
Eu cheguei em Porto Alegre em 1970 para trabalhar no Banco
Mineiro do Oeste, que depois foi comprado pelo Bradesco. Entrei na
Ufrgs para estudar Engenharia Elétrica. Depois fiz novo vestibular
para Agronomia. Morei em Porto Alegre até 1976. Por problema de
saúde, voltei para Minas Gerais. Consegui uma transferência para a
Universidade Federal de Viçosa. Me formei em Agronomia em 1980. E
desde então, trabalho com agricultura alternativa, com agroecologia.
O que você faz em Montes Claros?
Atualmente eu trabalho no Centro de Agricultura Alternativa. Eu
estou fazendo um curso de mestrado na Espanha, em agroecologia e
desenvolvimento rural sustentado. Aqui a gente dá assistência a
pequenos produtores rurais. A nossa grande preocupação aqui no norte
de Minas Gerais é com o Cerrado.
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| A imagem de Dayrell na árvore está em um dos banners da AGAPAN |
As palavras de Dayrell
Caros Amigas e Amigos:
Eu fico aqui pensando se por acaso vocês
aqui estão, vereadores da Câmara Municipal de Porto Alegre,
representantes da Faculdade de Direito que está comemorando o
centenário de fundação da instituição, militantes do movimento
ecológico gaúcho representados pela Coolméia, Pangea, União pela
Vida, Núcleo dos Ecojornalistas, Fundação Gaia e Agapan, que merece
lembrar, ontem, fez 27 anos de fundação, com uma trajetória
reconhecida não só aqui no Estado, mas em todo Brasil e inclusive no
Exterior.
Eu fico pensando se, por acaso, vocês que aqui estão
presentes, possam ter idéia do que representa este momento para o
cidadão Carlos Dayrell, um desconhecido nos sertões de Minas Gerais,
que saiu de Montes Claros, no norte do Estado, um sertanejo que se
define no dizer de Guimarães Rosa: “Sou só um sertanejo. Nestas
altas idéias, navego mal”.
E quem é o sertanejo?
O sertanejo é um homem criado num ambiente
onde o contrato natural que ele estabelece com o seu meio é mediado
pelo respeito com a natureza. E pode ter sido um fragmento deste
sentimento, lapidado pelo sentimento gaúcho na sua relação com a
imensidão dos pampas, que fez o ainda menino mover-se por um
sentimento natural, tornar-se sem saber e sem querer, através de um
gesto coletivo, um símbolo de uma sociedade que se propõe
estabelecer um novo contrato com o seu meio.
Pois é um destes sertanejos que está aqui
nesta cerimônia, que está aqui hoje para receber o título de Cidadão
de Porto Alegre onde, com muita responsabilidade e carinho, vai
levar de volta para o lugar onde vive, quem sabe um elo invisível
traçado hoje por vocês, um elo invisível mas permanente de amor por
uma causa que é muito maior que a soma de todos nós.
Vocês não podem imaginar a emoção que isto
faz comigo e na verdade é até difícil entender como hoje estou aqui
nesta cerimônia. Certamente, para eu estar aqui hoje muita coisa
mudou nos corações das pessoas que lidam diariamente com decisões
que influenciam a vida de centenas de milhares de cidadãos.
Inclusive com a minha. Muita coisa mudou pois, quando sai daqui em
1976, de volta a Minas Gerais, um ano e meio após o episódio da
subida na árvore, minha mãe ainda carregava consigo a tensão de uma
possível represália da ditadura militar contra o seu filho.
Episódio que compartilho com Marcos
Sarassol, Teresa Jardim, com a imprensa de Porto Alegre, com os
militantes da Agapan, com centenas de pessoas, estudantes populares
que anonimamente lutaram naquele dia pela preservação da árvore, não
se curvaram diante do aparato militar e que, de lá para cá
provocaram um salto na luta pela defesa, não só das árvores
isoladamente, mas em defesa da vida em seu sentido mais amplo. Esta
homenagem compartilho com todos vocês.
Eu não poderia estar aqui se não fossem os
ensinamentos de meus pais, que, em 1970, ainda com 17 anos,
permitiram que saísse de Sete Lagoas para estudar e trabalhar em
Porto Alegre.
Eu não poderia estar aqui se não fosse o
carinho do meu irmão Geraldo Dayrell Filho e de toda a família
Hiwatashi, ilustres horticultores de Porto Alegre, que me acolheram
como membro da família, e me estimularam na profissão que segui.
Eu não poderia estar aqui se não fossem
pessoas como José Lutzenberger, Augusto Carneiro, Caio Lustosa,
Magda Renner, e muitos outros que colaboraram no desenvolvimento da
percepção de solidariedade não só com a vida no planeta Terra de
hoje, mas uma solidariedade intergeneracional, solidariedade para
coma vida das gerações que estão por vir, solidariedaade para com
gerações anteriores que souberam nos legar um planeta amplo de
possibilidades e de potencialidades.
Solidariedade que se traduz não em grandes
feitos, mas de um construir diário na busca de sociedades
sustentáveis. Sociedades que incluem a intricada e maravilhosa teia
de seres vivos onde suas mais de 30 milhões de diferentes espécies
de seres vivos a que denominamos de biodiversidade, nos garante a
possibilidade de continuidade da vida no planeta Terra.
Biodiversidade que está ameaçada pela
ganância de uma economia baseada na exploração dos seres vivos (e
entre eles o homem), na dilapidação dos recursos naturais, onde
poucas empresas transnacionais conseguem impor os seus interesses
numa escala global, corrompendo governos e legisladores. Temos
exemplo no Brasil a Lei das Patentes, que se curva ao permitir a
difusão de novos seres vivos criados pelo homem cujos riscos de sua
manipulação na natureza ainda são desconhecidos. Biodiversidade que
está ameaçada por alguns setores prepotentes ligados à ciência que
avalizam sem assinar nenhuma promissória. Afinal, ao contrário dos
produtos químicos, os produtos da engenharia genética não podem ser
retirados do mercado. Me vem à mente a imagem do Titanic, saudados
pelos setores sociais dominantes da época como insubmergível. Um
iceberg o afundou. O mundo ficou perplexo. A engenharia genética
está aí. Mal conhecemos a ponta deste iceberg.
Então eu me pergunto: o que podemos fazer
além de homenagear as pessoas que lutam em defesa da vida em seu
sentido mais amplo?
O que podemos fazer além de subir nas
árvores?