02 fevereiro 2007

Calor infernal mundial

(Do Blog do Rodrigo)
Na Europa a coisa tá feia: várias estações de esqui nos Alpes italianos estão fechando em pleno janeiro devido à falta de neve, e as temperaturas que deveriam estar abaixo de zero andam rondando os 20°C. Esses dias vi imagens da Bulgária: a temperatura chegou a 17°C, calorão para essa época, a ponto da população ir à praia tomar sol. No sul da Romênia, as temperaturas que têm batido na casa dos 19°C estão afetando os hábitos de corujas. Uma partida de xadrez com peças de gelo jogada simultaneamente em Londres e Moscou foi atrapalhada pelas temperaturas, de 12°C na capital inglesa e, acreditem, 5°C na capital russa, famosa pelo inverno congelante, com temperaturas que chegam a até -30°C. E por falar em Rússia: os seis ursos do zoológico de Rostov-on-Don, no sul do país, começaram a hibernação no último dia 11, quando isto deveria ter ocorrido em novembro. Segundo meteorologistas russos, o atual inverno é o mais quente na parte européia do país desde 1879, quando começaram as medições. Em zoológicos suecos e alemães, os ursos também não conseguem hibernar, devido à falta de frio.
Nos últimos anos, o inverno gaúcho tem tido menos períodos longos de frio, o que vem predominando é o "esquenta-esfria": faz calor, chove, esfria, o tempo seca e começa a esquentar, faz calor, chove, esfria... Fazer alguns dias de calor é normal no inverno do Rio Grande do Sul: nosso clima não é temperado (onde as quatro estações são bem definidas) mas sim subtropical (como diz a palavra, "quase tropical"), ou seja, é um tropical que tem frio. Mas o último inverno de verdade por aqui foi em 2000, quando em julho houve uma seqüência de mais de quinze dias de temperaturas mínimas em torno (ou abaixo) de 0°C. Em 2006, o inverno só começou no fim de julho e terminou em setembro. Ou seja: além de menos frio, está se tornando mais curto.
Conseqüentemente, o verão está se tornando mais quente (o atual está sendo o pior desde 1995) e mais longo: o calorão nos últimos anos tem começado em novembro e se estendido até abril, outono adentro. O tradicional "veranico de maio", período de temperaturas mais altas que antecede o inverno, está condenado à extinção: como o calor tem se estendido por mais tempo, o tempo não esfria em abril e assim não esquenta em maio: simplesmente o calor continua...
E as chuvas? Tem sido cada vez mais fortes e mais freqüentes em algumas regiões, e mais escassas em outras (um bom exemplo é o Pampa Gaúcho: a cidade de Bagé vive racionamento de água desde 1º de dezembro de 2005). Têm acontecido mais furacões onde eles costumam ocorrer, e eles têm andado por outras bandas, como o tal de Catarina, que provocou destruição nos litorais de Rio Grande do Sul e Santa Catarina em 28 de março de 2004.
Tá feia a coisa, né? Pois prepare-se: nada está tão ruim que não possa piorar...
A tendência é que, mantidos os níveis de emissão de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, em breve o monte Kilimanjaro, ponto mais alto da África, famoso pela beleza de suas geleiras, ficará sem elas em menos de dez anos. A capa de gelo do Ártico poderá derreter-se completamente durante o verão em menos de cinqüenta anos, provocando aumento do nível do mar e conseqüente aquecimento das águas, gerando mais calor, mais tempestades, e paradoxalmente, mais secas em determinados pontos: o calor desgraçado provocará a evaporação de toda a umidade do solo. E se o gelo antártico também se derreter totalmente durante o verão, bem... Aí será o caos. Bilhões de pessoas terão de buscar refúgio em áreas mais altas devido à invasão do mar às terras baixas, gerando conflitos em todo o planeta. Países insulares como alguns do Caribe e no Pacífico, e de terras muito baixas como a Holanda, sumirão do mapa.
Mas ainda há tempo de impedir que a catástrofe aconteça. O que fazer? Em primeiro lugar, não esperar que o governo faça alguma coisa, e sim, nós mesmos fazermos. Precisamos mudar nossos hábitos. Caso contrário, do jeito que as coisas andam, é capaz do desastre não acontecer em 2050, e sim, daqui a pouco tempo: as profecias maias prevêem o fim do mundo para 2012...
Aí vão algumas dicas:
Substitua lâmpadas incandescentes por fluorescentes: estas consomem 60% a menos de energia;
Limpe ou substitua regularmente o filtro de seu ar condicionado: isto diminui a emissão de CO2;
Compre aparelhos de ar condicionado com termostato programável;
Diminua em 2 graus o termostato no inverno e aumente em 2 graus no verão: creio que sejam graus Fahrenheit, mas ninguém morrerá de calor se aumentar a temperatura de 20 para 22 graus Celsius, e nem de frio se diminuir de 19 para 17 graus;
Compre aparelhos elétricos eficientes, que desperdicem menos energia;
Use menos água quente: aproveite os dias escaldantes de verão para tomar banhos frios, além de economizar energia (eletricidade ou gás), é uma beleza;
Não use secador elétrico: deixe as roupas secarem naturalmente, e para secar os cabelos use a boa e velha toalha;
Desligue aparelhos elétricos da tomada quando não estiverem em uso, muitos deles consomem energia mesmo que "desligados";
Use máquinas de lavar (roupas ou louças) apenas quando puder enchê-las: se poucas peças de roupas estiverem sujas, deixe de ser preguiçoso e lave-as você mesmo;
Estimule a reciclagem do lixo: boa parte do que jogamos fora pode ser reutilizado inúmeras vezes;
Plante árvores: além de proporcionarem sombra nos verões cada vez mais quentes, elas absorvem CO2 e podem ajudar a diminuir o calorão infernal;
Utilize fontes renováveis de energia, como a solar e a eólica;
Compre alimentos produzidos na sua região: além de movimentar a economia local, o que é produzido longe tem de ser transportado desde longe por caminhões, o que aumenta a poluição do ar e a emissão de CO2;
Compre alimentos frescos ao invés de congelados: assim você pode desligar seu freezer e economizar energia;
Compre alimentos orgânicos: solos orgânicos absorvem mais CO2, removendo-o da atmosfera;
Evite produtos bastante empacotados, que geram mais lixo;
Se for a um local próximo, troque o carro pela bicicleta ou pela caminhada: além de não poluírem o ar, são ótimos exercícios;
Use ônibus ou trem para se deslocar ao trabalho ou à faculdade e deixe o carro para os finais de semana e feriados: além da menor emissão de CO2, diminui o caos no trânsito;
Se realmente precisar de um carro, compre um que consuma menos combustível, de maneira a emitir menos CO2.

22 janeiro 2007

A morte de um cidadão

Dia 9 de janeiro de 2006 falecia Haeni Ficht, líder comunitário que deu início ao movimento em defesa da Rua Gonçalo de Carvalho. Haeni foi o inspirador e principal ativista do movimento Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho.
Posteriormente foi um dos fundadores da AMABI e seu primeiro presidente. Haeni era dentista e residia no edifício Ado Malagoli, vizinho ao estacionamento do Shopping Total, onde era subsíndico. Estava entusiasmado, por ser apreciador da boa música, com a construção do Teatro da OSPA junto ao estacionamento do Shopping. Mas até então se desconhecia o projeto do Teatro e ninguém falava da construção de um grande edifício-garagem junto a rua Gonçalo de Carvalho.
Certo dia, lendo o jornal Correio do Povo, viu uma pequena notícia que alterou seu humor. Dizia o jornal que seria construído um edifício-garagem de sete pavimentos, sendo dois deles subterrâneos, junto a Gonçalo de Carvalho. Ele sabia bem que ali era uma pedreira e que para contruir um prédio daquelas proporções iria causar sérios danos não apenas aos prédios vizinhos como, fundamentalmente, à rua e suas belas árvores.
Pegou o jornal e bateu à porta da síndica do prédio, Sinova Telles, grande apreciadora de música erudita. Mostrou o jornal e perguntou se haviam maneiras de conseguir maiores esclarecimentos a respeito. Sinova respondeu prontamente: "vamos falar com a OSPA e solicitar informações". Após uma série de telefonemas conseguiram agendar uma reunião no apartamento da síndica onde participariam moradores do prédio, o superintendente do Shopping, o presidente da Fundação OSPA e o presidente da Associação Cristóvão Colombo, pois não havia Associação na Independência e o Shopping situa-se no bairro Floresta.
Já nesta primeira reunião as posições ficaram claras. Os moradores da rua estavam sós. Não teriam acesso à planta do edifício-garagem, o Shopping cedia o espaço para a construção desde que fosse contruída a garagem com um número igual de vagas perdidas e a Associação Cristóvão Colombo - cujo presidente é suplente de vereador - via com muita simpatia o projeto, pois o Shopping Total é parceiro fiel de suas promoções. A prefeitura já havia aprovado tudo em pouco mais de um mês e apenas faltava UMA licença para terem a autorização de construir tudo.
Nessa reunião o presidente da OSPA teria dito que o responsável pelo projeto logo colocaria as plantas da garagem à disposição dos moradores, algo que não aconteceu... até a data de hoje.
Haeni contou para a Sinova que estava muito desconfiado com o que estava acontecendo. Ora, o projeto de construção da Sala Sinfônica da OSPA era conhecido de todos, mas nunca se havia falado na garagem. Haviam imagens até em 3D do teatro mas não havia nada que sugerisse a contrução do tal edifício com 650 vagas de estacionamento. Ele estaria junto ao túnel verde da Gonçalo?
Tudo foi aprovado silenciosamente em 30 dias assim que assumiu o novo governo.
As instalações da antiga cervejaria Brahma não estavam tombadas como patrimônio cultural de Porto Alegre, a ponto de não poderem existir construções maiores que os prédios históricos da Brahma?
Para uma obra de tal porte não haveria a necessidade legal de consultar a vizinhança?
Os prédios vizinhos, alguns muito antigos, não seriam abalados? Pois as fundações seriam muito profundas e teria que ser usada muita dinamite, pois o local é uma pedreira basáltica. Por que não podiam ver as plantas do edifício-garagem?
Estaria projetado para futuras ampliações até o limite de 14 andares previsto no Plano Diretor da cidade?
O Shopping não era inquilino no local? Poderia repassar parte de seu terreno para a Fundação?
Haveria dinheiro público numa obra grandiosa que após o vencimento do contrato de locação iria passar para o real dono do terreno?
A saida dos carros da garagem seria pela rua Gonçalo de Carvalho?
Mas, sobretudo, porque a pressa na aprovação e o silêncio sobre a construção da garagem?
Qual o verdadeiro impacto ambiental sobre a rua, seus pássaros e árvores, sobre a vizinhança?
O Haeni disse: "aí tem coisa! Vamos ter que tentar mobilizar as pessoas".

Tudo começou assim. Foi uma briga desigual contra gente poderosa. Muitos se juntaram a nós. Outros diziam que era "muito delicado" se colocar contra algo que levava o nome OSPA, grande orgulho dos gaúchos e em especial dos porto-alegrenses.
Foi uma boa luta. A mídia silenciava (RBS) ou nos atacava (Caldas Júnior) e respondíamos com panfletos entregues porta-a-porta. Na prefeitura apenas o secretário Beto Moesch (Meio Ambiente) mostrava uma constrangida simpatia. O Haeni fazia tudo, pagava despesas com panfletos, pesquisava, convidava os vizinhos a participarem, era difícil acompanhar ele.
Certo dia ele descobriu a Alda Py, fundadora e vice-presidente da Associação Moinhos de Vento e moradora da Independência. Ela colocou os jornais de bairro FLORESTA e JÁ em contato com os moradores. Começamos a ter voz na mídia. Mas a poderosa RBS continuava distante e silenciosa. Até entendíamos isso. Afinal o real proprietário do terreno do Shopping era uma empresa do presidente de sua concorrente Caldas Júnior. Quando a RBS nos procurou para ouvir nossa versão dos fatos muita gente começou a ter algumas dúvidas. O Lasier Martins fez um programa "Conversas Cruzadas" na TVCom com o Haeni nos representando. A TVE fez matéria na rua e o Haeni falava por nós. O Haeni era nosso voz e nossa cara quando das entrevistas. O Haeni sempre à frente... Criou a AMABI, entidade jurídica, para poder entrar no Ministério Público a fim de buscarmos a defesa da comunidade.
A briga foi realmente grande e antes de ter seu desfecho vitorioso para a comunidade, perdemos o Haeni.
Nunca tivemos maiores informações sobre sua morte. Foi um grande baque. O Marcelo Ruas, vice-presidente da AMABI, assumiu e continuamos a peleia.
Todos pegaram juntos. A maior parte de maneira anônima. Empregadas domésticas e doutores, operários e professores, moradores do bairro e gente que mora em vilas distantes. Entidades ambientalistas, outras associações de bairro, e apenas UM político teve a coragem de nos apoiar abertamente: a vereadora Sofia Cavedon. Os demais vereadores e deputados silenciaram, afinal quem iria "afrontar" o nome da gloriosa OSPA?
Que pena Haeni que morrestes antes de nossa vitória. Pois se a vitória foi da cidade e da cidadania, neste caso específico a cidade e seus cidadãos tiveram uma cara e um nome: Haeni Ficht.

12 dezembro 2006

Os Estatutos do Homem, segundo o poeta Thiago de Mello

Os Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)
Thiago de Mello
(A Carlos Heitor Cony)

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade, agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964.