Menina queimada por Napalm no Vietnã - foto da menina Kim Phuc por Nick Ut
30 de abril de 1975 – a derrota estadunidense no Vietnã e a disseminação mundial dos agrotóxicos
O dia 30 de abril marca o fim da Guerra do Vietnã (segundo os vietnamitas a “Guerra Americana”). Foi o mais longo conflito militar ocorrido após a II Guerra Mundial, durou de 1 de novembro de 1955 até 30 de abril de 1975 com a vitória do Vietnã do Norte e Frente Nacional de Libertação do Vietnã contra os Estados Unidos da América, Vietnã do Sul com participação secundária da Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia.
Crianças queimadas por Napalm - Nick Ut
Na guerra morreram cerca de quatro milhões de vietnamitas (de ambos os lados), dois milhões de cambodjanos e laocianos que foram arrastados para a guerra pela propagação do conflito, além de aproximadamente 60 mil estadunidenses.
Inúmeros crimes de guerra foram cometidos contra a população civil da região, massacres militares contra camponeses, bombardeios indiscriminados contra cidades e aldeias e também algo que chocou terrivelmente o chamado "mundo civilizado": o uso de Napalm e “Agente Laranja”.
O “Agente Laranja” é uma mistura de dois herbicidas: o 2,4-D e o 2,4,5-T. Ele foi usado como desfolhante pelo exército dos Estados Unidos nas florestas vietnamitas. Os dois integrantes do Agente Laranja tiveram uso na agricultura, principalmente o 2,4-D que é vendido até hoje.
O uso do “Agente Laranja” deixou sequelas terríveis na população do Vietnã e nos próprios soldados estadunidenses.
Aviões espalhando Agente Laranja no Vietnã (Wikipédia)
No período de 1961 a 1971, os Estados Unidos aspergiram 80 milhões de litros de herbicidas, que continham 400 quilogramas de dioxina sobre o território vietnamita, de acordo com estatísticas oficiais. Os constantes bombardeios químicos desfolhavam as florestas para tornar o inimigo visível. Os campos eram envenenados para que o vietcong não tivesse mais nada para comer. Nas áreas pulverizadas multiplicou-se por dez o número de nascimentos de crianças com anomalias; nasciam sem nariz, sem olhos, com hidrocefalia ou fendas no rosto – e as forças armadas dos Estados Unidos asseguravam que o produto seria tão inofensivo quanto a Aspirina.
Grupo de crianças deficientes, a maior parte vítima do Agente Laranja. (Wikipédia)
Esses desfolhantes destruíram o habitat natural, deixaram 4,8 milhões de pessoas expostas ao agente laranja e provocaram enfermidades irreversíveis, sobretudo malformações congênitas, câncer e síndromes neurológicas em crianças, mulheres e homens do país. O Vietnã alega que o desfolhante tóxico faz vítimas até hoje.
Helicóptero espalhando Agente Laranja nas florestas do Vietnã (Wikipédia)
Quem era o principal fabricante do “agente laranja”? Era a conhecida MONSANTO, indústria multinacional de agricultura e biotecnologia sediada nos Estados Unidos, hoje líder mundial na produção do herbicida glifosato, vendido sob a marca Roundup. Também é o produtor líder de sementes geneticamente modificadas (transgênicos), respondendo por 70% a 100% do mercado para muitas culturas.
Com o fim da guerra a MONSANTO disseminou mundialmente o uso maciço de agrotóxicos, sendo os herbicidas que contêm glifosato seus carros-chefes. Com a “experiência” adquirida no Vietnã, depois da guerra, a Monsanto passou a focar mais intensamente o setor agrário, o desenvolvimento de herbicidas e em seguida a produção de sementes. Nos anos oitenta, a biotecnologia foi declarada seu alvo estratégico, pois as sementes transgênicas criam a dependência para os produtores – ela cobra royalties dos produtores mesmo que não tenha fornecido as sementes – e sabidamente os transgênicos usam mais agrotóxicos.
Quando a Monsanto perderá sua guerra contra a humanidade?
11 de janeiro - Dia do Controle da Poluição por Agrotóxicos
Biocidas “matam vidas”
Precisamos nos certificar se a nossa ação é sustentável, isto é, se
não implica demolição dos suportes da Vida no planeta, e se está
orientada para a justiça social, se não pisa muita gente. Eu não
gostaria de ver a humanidade desaparecer, e dentro da humanidade eu
gostaria de ver mais equilíbrio. Eu não posso considerar progresso
aquilo que não prevê a manutenção da integridade da Vida e o aumento da
soma da felicidade humana. (LUTZENBERGER).
Aquilo que as indústrias transnacionais do setor dos venenos agrícolas e
o agronegócio chamam eufemisticamente de “defensivos agrícolas” são
nada menos do que armas químicas.
“O Brasil continua sendo o maior consumidor de venenos agrícolas do
mundo. Infelizmente, cada habitante consome hoje mais de cinco litros
por ano desses produtos. Se fosse consumido em um único dia, estávamos
todos mortos”. Cerca de 1 bilhão de litros são utilizados anualmente nas
lavouras brasileiras, o que representa mais de cinco litros de venenos
agrícolas por habitante ao ano. Muitos destes venenos como herbicidas,
fungicidas, inseticidas estão proibidos em quase todo mundo pelo risco
que representam à saúde pública. O perigo ameaça todos trabalhadores,
que manipulam os venenos, bem como todos os cidadãos que consomem os
produtos agrícolas.
“No Brasil o consumo de venenos agrícolas não é apenas em excesso, como
também existem os proibidos, os desconhecidos, o que pode indicar
contrabando”.
“Se já não obedeciam à antiga legislação, imaginem agora. Vivenciamos
pulverizações até nos quintais das residências, nos quintais das
escolas, nos passeios e vias públicas, nas periferias das cidades”.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que ocorram no mundo cerca
de três milhões de intoxicações agudas por agrotóxicos com 220 mil
mortes por ano. Dessas, cerca de 70% ocorrem em países do chamado
Terceiro Mundo. Além da intoxicação de trabalhadores que tem contato
direto ou indireto com esses produtos, a contaminação de alimentos tem
levado ao grande número de intoxicações, há mortes dos consumidores
mundiais e, muitas vezes, requisitos básicos de segurança para a
aplicação, armazenamento e a disposição final dos mesmos não são
cumpridos. Diante disso os serviços de informações toxicológicas
notificaram ao Ministério da Saúde 193 casos de intoxicação por
pesticidas agrícolas, domésticos e raticidas, em 1993.
Constitui-se esse, portanto, um grave problema de saúde pública,
demandando intervenção em diversas esferas, inclusive a implantação de
um sistema de vigilância da saúde de populações expostas a venenos
agrícolas.
Como não dispomos de dados que reflitam a realidade do número de
intoxicações e mortes por venenos agrícolas, porém é fácil supor que o
tamanho do problema não é pequeno, sendo um dos maiores.
Os biocidas são os principais poluentes do modelo agrícola industrial.
Por seu vasto espectro deletério, os venenos organossintéticos não se
limitam a um determinado local, apesar de serem aplicados numa área,
translocam-se por vários caminhos. A translocação das substâncias
tóxicas pode se realizar por meio biológico, pelos processos químicos e
físicos, através da atmosfera, do solo, das águas subterrâneas e
superficiais.
O uso de venenos agrícolas não pode ser entendido como um problema
exclusivamente do meio rural, pois a irradiação desses produtos tóxicos,
no meio urbano, é em decorrência do crescente uso nas lavouras, como
também, da expansão das áreas de cultivo e áreas urbanas, com sua
consequente aproximação de ambas. Por consequência disso, as substâncias
chegam muito facilmente à cidade, contidas nos alimentos, nas fontes de
água de abastecimento público, ou presentes no ar.
Algumas causas podem ser apontadas para explicar esse alto consumo de
biocidas, tais como: imediatismo financeiro, ignorância dos efeitos
tóxicos nos animais e no Homem e, mesmo, inconsequência.
Aos agricultores cabe ressaltar o papel de utilizador deste conjunto de
produtos e técnicas, muitas vezes sem a real noção do perigo que
enfrenta todos os dias. São também vítimas de um modelo que perpetua
dependência, no campo financeiro e econômico, pelos financiamentos, pela
necessidade de alta produtividade, pelos passivos sociais e ambientais
que cabem aos agricultores e a sociedade administrar.
A dimensão têmporo-espacial do uso de biocidas é muito mais complexa do
que parece, porque possui diversas interações que se ligam a aspectos
políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais. Para entender
esta detalhada trama é necessários outros trabalhos científicos que
possam aprofundar a compreensão num determinado seguimento e encaixá-los
no todo.
A contaminação humana e dos recursos naturais, pelo uso indevido e até
excessivo de biocidas, constitui grave problema de saúde pública,
podendo levar a intoxicações e óbitos dos seres humanos, causados pela
falta de conhecimentos, de cuidados preventivos e manejo agrícola
inadequado.
A realidade da aplicação indiscriminada dos venenos agrícolas no meio
agrícola. Apesar de a demanda por produtos mais saudáveis estar
crescendo, a população ainda está pouco informado sobre essas questões,
na medida em que o alimento de boa aparência causa impressão de ser mais
saudável.
Urge a necessidade de quebrarmos esse paradigma da aparência do
alimento, sob pena de o preço por esse consumo desenfreado e
insustentável ser altamente prejudicial para as atuais e futuras
gerações.
Os custos ambientais gerados pela utilização indiscriminada de veneos
agrícolas, ou seja, pela “política de alimento barato” ou “política do
alimento em massa”, podem ser caracterizados pela contaminação dos
corpos de água, do solo e do ar, pela perda da biodiversidade e de solos
agricultáveis por salinização, acidificação ou erosão e pela redução da
qualidade de vida da população.
Estudos muito bem fundamentados continuam comprovando o avanço dos casos
de câncer nas mais diversas faixas etárias, resultado do uso de
agroquímicos. Os números crescem, sobretudo entre agricultores e
populações rurais em localidades onde há um alto índice de aplicação dos
venenos.
No dia 21 de março de 2011, pesquisa denunciou a contaminação do leite
materno por agrotóxicos usados em plantações no município de Lucas do
Rio Verde, a 350 km de Cuiabá (MT). As amostras foram colhidas de 62
mulheres atendidas pelo programa de saúde da família do município. Em
100% das amostras foi encontrado pelo menos um tipo de veneno agrícola e
em 85% dos casos foram encontrados entre dois e seis tipos. A
substância com maior incidência é conhecida como DDE, um derivado de
outro veneno agrícola, DDT, proibido pelo Governo Federal em 1998 por
provocar infertilidade no homem e abortos espontâneos nas mulheres.
Sabemos que ao nos alimentarmos estamos nutrindo não apenas o nosso
corpo, mas também os sentidos, o espírito, a mente, a nossa alma. Ao
prepararmos nossa alimentação, com certeza são necessários vários
ingredientes, como história, cultura, poesia, amor, sentimento, que vão
muito além do sal e da pimenta.
A alimentação natural e ecológica faz parte da nova visão de mundo,
estabelecendo novas relações, dando à vida o seu significado verdadeiro,
que é a própria natureza e a alimentação.
Vivemos a cultura de supermercado, onde tudo está a nossa disposição.
Consumimos alimentos industrializados e frutas que não são da época,
produzidas de maneira forçada, com grande quantidade de insumos químicos
e venenos agrícolas.
Hipócrates, dizia “somos o que comemos”. Nosso corpo não deixa de ser
uma máquina, muito delicada por sinal, e para funcionar precisa de um
bom combustível. Que tipo de alimento está consumindo? Quais as doenças
que estamos desenvolvendo?
A ética como tônica no combate aos venenos agrícolas
Mas comida sustentável, além da saúde, estamos tratando de outros
diversos temas relacionados à cozinha, como o cuidado com o meio
ambiente, o compromisso com a produção local e regional, a consciência
ecológica, o consumo de hortaliças e frutas da época e ecológicos. Assim
o sistema alimentar ideal seria semelhante ao de nossos avós e bisavós,
quanto mais natural melhor, o nosso cardápio diário deveria ser
composto de pelo menos 60% de alimentos crus e 40% de alimentos cozidos.
Que tipo de influência e impacto tem sobre o ambiente em que vivemos o
alimento que nós consumimos? Como ele é preparado? Como ele é produzido?
Internamente, no corpo, o alimento tem uma influência direta nas
células vivas, que vivem em perfeita harmonia, quando permitimos;
externamente é a nossa casa, o bairro, a cidade, o planeta. Por isso
qualquer mudança alimentar que seja feita, dando a devida atenção no que
estamos ingerindo, irá trazer muitos benefícios, assim ao cuidar de
você, da sua alimentação, automaticamente, estará cuidando do planeta.
Independente de sermos consumidores ou agricultores, todos precisamos de
sistemas produtivos sustentáveis, valorizando a sabedoria e as culturas
locais, em especial os hábitos alimentares, garantindo a segurança
alimentar, gerando renda e um novo olhar sobre o sistema de produção e a
vida.
O agronegócio, as transnacionais, as monoculturas, a degradação
ambiental em função da busca incessante pelo lucro e pelo acúmulo de
riquezas, a prioridade dada às exportações em detrimento da alimentação
do povo brasileiro, os transgênicos e o latifúndio, todas essas ameaças e
fatores têm avançado bastante na sociedade brasileira nos últimos anos.
Leonardo Boff, na sua sabedoria, nos adverte: “ocorre que a Terra não
aguenta mais este tipo de guerra total contra ela. Ela precisa de um ano
e meio para repor o que lhe arrancamos durante um ano. O aquecimento
global é a febre que denuncia estar doente e gravemente doente”.
São evidentes os sinais da insustentabilidade ecológica do modelo
civilizacional pautado no domínio da natureza pelo homem, e sejam
adotadas diversas medidas de ordem política e jurídica no intuito de
promover uma adequação do exercício das liberdades humanas aos limites
da natureza sem prejudicar a continuidade do processo vital, os
resultados têm sido pífios.
A insustentabilidade está posta, traduz-se na monocultura da mente que a
humanidade vem eficientemente estabelecendo nos últimos séculos.
Trata-se do limite intransponível do que se compreende por humano.
A ética acompanha o homem desde os primórdios da civilização, e vem
moldando-se com a história da humanidade. Conceber, racional e
emocionalmente, finalidades para o agir humanas, a partir de um quadro
de incerteza e de uma crise ambiental sem precedentes, que expõe as
fragilidades do conhecimento humano e de sua capacidade de interagir
ecologicamente, é um desafio que compete à economia, à sociologia, ao
direito, mas, sobretudo, à ética.
A ética promove uma reflexão sobre a escolha dos valores da sociedade. É
a partir dos valores exsurgentes com a crise ecológica que vive a
sociedade de risco, que os danos próprios dessa sociedade, como os danos
ambientais, podem vir a serem evitados. Valores como dignidade,
justiça, democracia, são valores cujos fundamentos a nova ética deve
conformar. Que justiça é pertinente à sociedade pós-moderna, ela implica
pensar no futuro? Que compromisso essa compreensão de justiça coloca
para os homens do nosso tempo? Reflexões dessa ordem servirão para
nortear o futuro da humanidade e, eventualmente, afastá-la das
contundentes ameaças que a acompanham neste século. A ética ecológica é,
sobretudo, e independentemente das concepções antropocêntricas ou
biocêntricas, a ética que tem por finalidade a preservação da Vida.
A ética se relaciona com os venenos agrícolas na medida em que o uso
destes gera uma série de implicações nos seres humanos e na natureza. Os
venenos agrícolas liberados no ambiente podem causar uma larga escala
de efeitos ecológicos e na saúde humana. Vários são carcinógenos
comprovados ou suspeitos e podem ter efeitos tóxicos em seres humanos e
em espécies aquáticas. Os efeitos na saúde provocados pela exposição
crônica, em longo prazo ou a nível baixo de concentrações traço dos
agrotóxicos são desconhecidos. Outros interesses incluem efeitos
sinergísticos de agrotóxicos múltiplos e também os processos de
bioacumulação, bioconcentração e biomagnificação que envolvem a
acumulação de substâncias químicas por organismos através da cadeia
alimentar.
A responsabilidade ética para com as gerações presentes e futuras, com a
qualidade de vida que só se concretiza com a preservação do equilíbrio
ecológico, é o cerne da ética. A ética da responsabilidade compreende a
cumulatividade das ações humanas e tem a preocupação em resguardar a
humanidade dos efeitos cumulativos da tecnologia. Sua proposta requer
ação coletiva e tem um apelo a uma cidadania planetária, na medida em
que deve estar presente na prática cotidiana de cada indivíduo e nas
políticas públicas promovidas pelo Estado, bem como na das organizações
supranacionais.
Toda essa mudança de paradigma permite que a humanidade deixe de ser
compreendida como portadora de uma condição especialmente deslocada e
superior à natureza. Ao contrário, passa a integrá-la e a tornar-se
responsável por mantê-la viva, porque dessa nova ótica é possível
entender que o homem está irmanado a ela e que a sua própria existência e
a de seus descendentes são interdependentes.
É por meio do conhecimento ecologicamente pertinente, da ética
consequente e da recuperação do político, que em meio à aparente
desconstrução, podem surgir novos sentidos, que não se confundem com as
antigas verdades, mas estimulam a solidariedade e a responsabilidade
pela Vida.
Infelizmente não há meio termo nesse setor. É impossível garantir a
qualidade, a segurança e o volume da produção de alimentos dentro desse
modelo degradante. Não há como incentivar o uso correto de venenos
agrícolas. Isso não é viável em um país tropical como o Brasil, em que o
calor faz roupas e equipamentos de segurança, necessários para as
aplicações, virarem uma tortura para os trabalhadores.
A ética ecológica ou ambiental está longe de ser estéril, perdida nas
nuvens, metafísico; pelo contrário, ela destina-se a tirar conclusões
práticas como a criação de políticas de proteção ao meio ambiente, de
solução do conflito entre o homem e a natureza; não é fácil que o homem
aceite que a natureza também tem valor intrínseco e que esse já não é um
privilégio a ele reservado.
Há que buscar solução na transição agroecológica, ou seja, na gradual e
crescente mudança do sistema atual para um novo modelo baseado no
cultivo orgânico, mantendo o equilíbrio do solo e a biodiversidade,
redistribuindo a terra em propriedades menores.
Assim facilita a rotatividade e o consórcio de culturas, o controle
natural às pragas e o resgate das relações entre os seres humanos e a
natureza, valorizando o clima e as espécies locais.
Existem muitas experiências bem sucedidas no mundo e no Brasil, que
comprovam a viabilidade desse modelo. Até em assentamentos da reforma
agrária há exemplos de como promover a qualidade de vida, a justiça
social e o desenvolvimento sustentável.
“A agroecologia não é apenas um sistema de produção agrícola, mas também
um ato político contra a agricultura predatória e contra as condições
de trabalho injustas para o agricultor. Além disso, ajuda na melhoria da
qualidade de vida, permitindo tanto ao agricultor quanto ao consumidor
não terem contato com agroquímicos. Enfim, mais que uma série de
práticas, a agroecologia é uma filosofia de vida”.
A lógica de combater às pragas, insetos, ervas daninhas, pestes implica
no principio de que se há de matar o inimigo e, por isso, inseticidas,
herbicidas, pesticidas, praguicidas entre outros venenos agrícolas
matam, não só o inimigo, mas, também, pessoas, plantas, peixes e outros
animais.
A educação agroambiental deve ser uma forma de “regenerar” a mão de obra
do campo, tanto no que diz respeito aos efeitos negativos da
escravidão, quanto ao desejo de autonomia gerado pela imensa fronteira
agrícola. Por isso mesmo, à medida que a campanha abolicionista avança,
vão surgindo propostas de ensino agrícola.
A questão é a maneira de viver daqui em diante sobre o planeta, no
contexto da aceleração das mutações técnico-científicas e do
considerável crescimento demográfico. Em função do contínuo
desenvolvimento do trabalho maquínico, redobrado pela revolução
informática, as forças produtivas vão tornar disponível uma quantidade
cada vez maior do tempo de atividade humana potencial. Mas com que
finalidade? A do desemprego, da marginalidade opressiva, da solidão, da
ociosidade, da angústia, da neurose, ou da cultura, da criação, da
pesquisa, da reinvenção do meio ambiente, do enriquecimento dos modos de
vida e de sensibilidade?
Finalmente, devemos lembrar que, antigamente, a Agroecologia era uma
prática sagrada. Era ligada ao culto da natureza, vista como divina.
Hoje, redescobrimos na Terra, na Água e em todo ser vivo, um sinal da
presença do mistério amoroso que envolve o universo. O amor que faz do
universo uma comunidade de vida. Que se denomine Deus ou não, esta
energia amorosa nos chama a cada um de nós a sermos nós mesmos sementes e
mudas fecundas desta amorização do planeta. Cada vez mais as pessoas
que seguem algum caminho religioso sabem que a religião só vale a pena
se ajudar a humanidade a viver este processo de amorização.
“O grande problema do setor é realmente o déficit de informações, as
quais precisam chegar à população, principalmente a quem manipula esses
venenos agrícolas”.
Assim não podemos continuar a envenenar cada vez mais o nosso belo
Planeta e a nós mesmos. Devemos repudiar a flexibilização no sistema de
saúde e meio ambiente no processo de avaliação e autorização de venenos
agrícolas.
Texto recebido de Julio Cesar Rech Anhaia - Engº Agrº - Alegrete – RS- 11/01/2014
Os agrotóxicos, todos os dias matam homens, mulheres, crianças, pelas mãos invisíveis dos assassinos silenciosos fabricados pelas multinacionais dos agroquímicos
Herbicidas - charge de Latuff
O termo agrotóxico não é utilizado pelo setor empresarial que faz questão de denominar os biocidas de “defensivos agrícolas”. Essa palavra está carregada de intencionalidade de marketing, cujo objetivo é convencer os agricultores de que esses produtos atuam somente para impedir a ação de organismos que poderiam causar prejuízos econômicos, ocultando os riscos inerentes a essas substâncias para o meio ambiente e para a saúde humana. Sob essa denominação, a nova tecnologia é “ensinada” nas faculdades de agronomia, veterinária, biologia, zootecnia e nas escolas técnicas agrícolas com forte patrocínio das empresas químicas, constituindo um corpo ideológico de interesse de mercado.
Outros termos empregados são: pesticida, que vem da tradução da palavra do inglês pesticide, e praguicida. Ambos exprimem a idéia equivocada do efeito biocida apenas nos agentes patógenos indesejáveis e ocultam o lado dos riscos negativos para a saúde e o ambiente. Aludem a um efeito seletivo, que não é real, como se houvesse controle do alvo a que se destina o produto, quando na verdade podem agir também em outros organismos vivos, incluindo o ser humano, e produzir efeitos não desejados. A palavra “biocidas”, bem menos utilizada, significa “matar a vida” e seria a melhor denominação para essas substâncias, uma vez que este é de fato sua função e para tal são produzidos.
Tanto no campo quanto nas cidades, os agrotóxicos são comumente chamados de “veneno” ou “remédio”. O termo “veneno” é atribuído a esses compostos, pelos próprios trabalhadores rurais, que durante anos vêm observando efeitos nocivos dos biocidas a saúde humana e animal. Já “remédio” é o termo utilizado por vendedores e técnicos ligados à indústria química, na tentativa de passar a idéia que os agrotóxicos são “remédio para a planta”.
Brasil - o maior consumidor de venenos agrícolas do mundo
O modelo agrícola adotado no Brasil, especialmente para as monoculturas, desde a Revolução Verde e a Modernização Agrária instituída na década de 60, reúne as seguintes características: mecanização; práticas agrícolas químico-dependentes; irrigação e concentração de terras.
Geralmente, quando se pensa em agrotóxico a primeira associação feita é com seu uso na agricultura. Porém vale ressaltar sua crescente utilização nas áreas urbanas, principalmente os inseticidas domésticos adquiridos em supermercados, que possuem uma grande diversidade de produtos, princípios ativos e marcas, bem como os utilizados pela saúde pública.
A utilização de biocidas de maneira indiscriminada causa também a destruição dos agroecossistemas formados pela complexa interação entre parasita e predador, colheita, animais de pastos e o homem, uma vez que a eliminação de alguns elementos dessa cadeia, considerados “controles naturais de pragas”, pode levar a um considerável aumento desses parasitas em determinadas regiões. Isso ocorre porque ao se utilizar agrotóxicos pode haver a destruição dos “controles naturais” e resistência de parasitas. Por conta disso utilizam-se agrotóxicos com outros princípios ativos, que podem causar a destruição de outros “controles naturais” e nova resistência, entrando assim num “ciclo vicioso”.
O uso descontrolado dos agrotóxicos leva a uma expansão dos riscos, fazendo com que as populações não diretamente vinculadas com a cadeia produtiva dessas substâncias também se exponham em função da contaminação ambiental e dos alimentos, tornando a problemática dos agrotóxicos uma questão ainda mais grave de saúde pública. Os usos dos agrotóxicos são um problema de dimensões alarmantes, uma vez que comprometem não só a saúde, mas também o ambiente. Na Austrália, por exemplo, a redução da biodiversidade, causada pelo uso de agrotóxicos, pode ser avaliada pelo decréscimo das populações de anfíbios. Nesse país há um dito popular: “Choro dos sapos se calou com a chegada dos agrotóxicos”.
A capina química é uma prática que vem crescendo de forma acelerada e é muito utilizada no controle de plantas daninhas e na questão de limpeza em áreas urbanas, porém de forma irregular como preconiza a ANVISA (Agencia Nacional de Vigilância Sanitária). Pela questão de tempo e condicionamento físico dos trabalhadores que utilizam esta prática, ela vem ganhando cada vez mais espaço na hora de decidir qual melhor forma de fazer a limpeza de uma área. Enquanto que na capina mecânica uma área que era devastada em horas ou dias na capina química esse período de tempo diminui consideravelmente. Na maioria das vezes essa prática é feita de forma desordenada por trabalhadores que não tem o mínimo de cuidado na hora do preparo e nem uma preocupação com a questão de sua própria segurança na atividade em que ele está realizando. Esta prática resume-se na aplicação de herbicidas na área em que se pretende fazer o controle das plantas indesejáveis
Nos municípios existem trabalhadores informais que são contratados para cuidarem das aplicações de herbicidas nas residências, por não serem supervisionados, estes trabalhadores agem de forma clandestina e irresponsável, colocando em risco a saúde das populações, bem como a integridade da flora e da fauna
Você sabe o que tem no seu alimento?
A percepção dos riscos inevitáveis que podem ocorrer com o mal uso de herbicidas para eliminação das ervas invasoras é fundamental para a consciência popular. Não há nenhuma fiscalização por parte do poder público no sentido de combater essa prática predatória e devastadora que pode não só extirpar a flora e fauna de determinadas áreas como também a interferir na saúde da população.
A Lei 6.288/02 aprovada pela câmara dos deputados em 12/08/2009 proíbe capina química em área urbana. A partir de 15/01/2010, a ANVISA também proíbe a aplicação de herbicidas em área urbana.
PORTARIA nº 16/1994. Art. 1º - O uso de herbicidas para a capina e limpeza de ruas, calçadas, terrenos baldios, margens de arroios e valas fica expressamente proibido em todo o território do Rio Grande do Sul.
Querem aprovar uma lei que permite depósitos de venenos ao lado de residências no RS
A ANVISA levantou dados junto às áreas técnicas da Agência, a diversos segmentos da sociedade, e de outros órgãos do SUS para verificar a veracidade do alerta de uso indevido de agrotóxicos em zona urbana, e evidenciou-se que a regulamentação dessa prática não se revelava o melhor caminho na busca da proteção e da defesa da saúde da população brasileira. Em qualquer área tratada com produto agrotóxico é necessário isolamento completo do local por no mínimo 24h, para impedir que pessoas entrem em contado com o agrotóxico aplicado. Segundo a ANVISA, em ambientes urbanos, este período de isolamento é impraticável, pois não há meios de assegurar que toda a população seja adequadamente avisada sobre os riscos que corre ao penetrar em um ambiente com agrotóxicos, “cabe ressaltar que crianças, em particular, são mais sujeitas às intoxicações em razão do seu baixo peso e hábitos, como o uso de espaços públicos para brincar, contato com o solo e poças de água como diversão”, ressalta.
A Agência destaca que cães, gatos, cavalos, pássaros e outros animais podem ser intoxicados tanto pela ingestão de água contaminada como pelo consumo de capim, sementes e alimentos espalhados nas ruas, onde se lança os agrotóxicos.
A ANVISA informa que há no mercado produtos agrotóxicos registrados pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) identificados pela sigla “NA” como agrotóxicos de uso Não-Agrícola. “Estes produtos registrados pelo IBAMA apenas podem ser aplicados em florestas nativas, em ambientes hídricos (quando assim constar no rótulo) e outros ecossistemas (além de vias férreas e sob linhas de transmissão)”, destaca. Dessa forma, a prática da capina química em área urbana não está autorizada pela ANVISA ou por qualquer outro órgão, “não havendo nenhum produto agrotóxico registrado para tal finalidade”, conclui.
Organismos geneticamente modificados usam ainda MAIS venenos
A falta de uma política efetiva de fiscalização, no acompanhamento técnico e no controle de agrotóxicos na região, que é integrada no mercado globalizado, revela que o parâmetro que interessa aos tomadores de decisão é apenas o da produção. A saúde e o ambiente estão longe de uma atenção adequada.
Como podemos educar as nossas crianças para um modo de vida sustentável que contemple entre outras coisas: alimentação orgânica, uso racional da água, consumo consciente, coleta seletiva, etc.; se de forma indireta, colocamos esses indivíduos em contato com produtos que irão lentamente se acumular nos seus corpos e um dia, talvez não muito distante, irá lhes causar sérios danos à saúde? Aquela velha figura do jardineiro que atendia a domicílio e utilizava ferramentas como tesoura de poda, oncinha, rastelo, entre outros, parece estar em extinção.
A capina química em áreas urbanas expõe a população ao risco de intoxicação, além de contaminar a fauna e a flora local. Por esse motivo, tal prática não é permitida.
Julio Cesar Rech Anhaia-Engº Agrº-03 de dezembro de 2014
Não vote em quem coloca ainda MAIS VENENO em nossa comida!
O brasileiro é quem mais consome veneno na alimentação.
Quase SEIS LITROS ao ano!
Não vote em políticos que aprovaram a liberação de Transgênicos, quando votaram a Medida Provisória em 2006.
Independente dos problemas à saúde que os transgênicos podem apresentar, tem mais uma coisa de fundamental importância a ser considerada: o Brasil é o campeão mundial em consumo de venenos agrícolas - agrotóxicos - e os transgênicos usam ainda mais venenos!
Transgênicos usam mais venenos!
Quem aprovou os transgênicos e colocou ainda MAIS venenos em nossos pratos?
Veja quem votou SIM na MP dos Transgênicos na Câmara dos Deputados (2006), o relator foi o deputado Paulo Pimenta do RS:
Como votaram os deputados do Rio Grande do Sul na Câmara dos Deputados
Não se omita! Participe do Agapan Debate no dia 11 de agosto às 19h, no auditório da Faculdade de Arquitetura da UFRGS.
Debatedores: Alfredo Gui Ferreira – .Biólogo, mestre em Botânica na UFRGS, doutor em Ciências na USP, pós-doutorado nos Estados Unidos. Professor e pesquisador aposentado da UFRGS. Tem perto de cem publicações científicas, foi orientador de mestres e doutores na UFRGS, UnB e UFSCar. Sócio fundador da Agapan e atual presidente da entidade.
Nilvo Luiz Alves da Silva – Diretor Presidente da Fepam
Paulo Brack – Biólogo, mestre em Botânica e doutor em Ecologia. Professor do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da UFRGS. Pesquisador da flora do RS e envolvido em temas de políticas públicas em biodiversidade, com representações em conselhos de meio ambiente, pelo Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (InGá), onde é um dos coordenadores.
Revista Veja 19 abril 1978- Fotos de Ricardo Chaves
Desastre ecológico em 31 de março de 1978.
HERMENEGILDO, no idioma teutônico, aquele que se sacrifica aos Deuses. Comunicadores e jornalistas dominam a psicologia do “real”, “virtual”, “simulacro”, “ficção”, mas religiosos e militares são os que mais ao fundo vão nessas questões. Hermenegildo era o orgulhoso balneário em Santa Vitória do Palmar a poucos quilômetros do arroio Chuí na fronteira Sul do país, próximo ao Albardão, mas em poucos dias colocou a ditadura do Geisel em polvorosa. Um dia antes do 14º Aniversário do Golpe Militar, mal chamado de Revolução Redentora uma espuma espessa e nauseabunda cobriu as praias e começou a sufocar as poucas pessoas e animais que perambulavam pelas areias e vielas vazias naquele final de verão. Milhares de toneladas de marisco branco, tatuíras morriam sufocados e jaziam desde Cabo Polônio no Uruguai, onde a censura militar impedia qualquer tipo de informação, embora a pesca represente 12% de sua economia. Qual o enigma?
Os Gabinetes dos Ministros da Saúde e Marinha por dever de oficio deveriam contatar as Relações Exteriores, OPAS-OMS, e seu IRPTC em função da fronteira onde estava o problema, mas ditadura é outra coisa.
Revista Veja 19 abril 1978 - Fotos de Ricardo Chaves
O Centro de Estudos Toxicológicos (CET) constituído por professores da UFPel e elite orgânica daquela cidade imediatamente foram por conta própria fazer sua investigação. A análise laboratorial das amostras recolhidas acusou o gás ISOTIOCIANATO DE METILA e os diligentes professores aos poucos dias vieram à imprensa com os resultados, o que não agradou o poder autoritário... Eles foram convocados a visitar o gabinete do Ministro da Saúde Dr. Paulo Almeida Machado instalado emergencialmente em Tramandaí, pois a espuma tóxica e sua atmosfera estavam seguindo para o norte... Ao fazerem finca pé nos seus dados os dois professores universitários foram deixados na Freeway, de madrugada e a pé, sem qualquer condução a não ser andar cinqüenta quilômetros até Porto Alegre ou Osório. Cidadania para quê.
O órgão ambiental gaúcho criado seis anos antes por ordem do Banco Mundial era apenas uma Coordenadoria do Meio Ambiente com meia dúzia de funcionários. Seus carros oficiais circulavam com um adesivo branco com letras vermelhas de nome bem sugestivo: “Operação Santa Vitória” (talvez parodiando o filme O Segredo de Santa Vitória.), mas os técnicos mais requisitados eram oriundos da CETESB de São Paulo pelo currículo e expertise.
A foto do cadáver desconhecido em Hermenegildo foi tirada pelo repórter fotográfico
Jurandir Silveira (CCJ) que consta do livro: "A ditadura de Segurança Nacional
no Rio Grande do Sul (1964 - 1985): História e Memória Voll III:
Conexão Repressiva e Operação Condor"
Para complicar o caso nas areias da praia surgiu o cadáver de um jovem de corpo atlético (sem a cabeça) que foi recolhido à morgue de Santa Vitória. Não era uma coisa rara ou muito anormal, pois a ditadura Argentina realizava os vôos da morte com os seus opositores e as correntes marítimas os traziam para Uruguai e em função da maré equinocial de 30 de março fez chegar ao Brasil. Ele foi autopsiado pelo Professor da UFRGS Dr. Djalma Johann e enterrado como desconhecido.
O fato mais estranho é que os mariscos mesmo depois de uma semana de mortos não tinham cheiro de podre, nem sequer decomposição, como se tivessem sido esterilizados.
O amigo Lutzenberger ao retornar do local, trouxe uma tosse estranha e nos pediu que fôssemos lá, pois afirmava que era veneno químico e o governo começava a articular que a causa era um fenômeno natural denominado “Maré Vermelha” causada por Dinoflagelados.
Revista Veja - 26 abril 1978
Fomos no avião do governo do Estado. Em Hermenegildo haviam dezenas de agentes do SNI. No local vimos que todas as árvores, arbustos e plantas de hortas caseiras expostas ao vento vindo da praia estavam dessecados. Não era fitotoxicidade pela proximidade do mar. Plantas de alta resistência como ciprestes, pinos e até a mamona estavam ressecados ou melhor dito dessecados por uma substancia química muito agressiva. Colhemos amostras vegetais e também mariscos para análise no laboratório Central do Ministério da Delegacia Federal do M. da Agricultura. Seguimos as pegadas do pessoal do CET. Sim, nas análises havia resíduos de Isotiocianato de Metila. Contudo, os efeitos daquele tóxico jamais teriam condição de tal impacto sobre uma área tão grande, desde Cabo Polônio até Tramandaí. Embora a UFRGS emitisse o laudo conclusivo de “maré vermelha” por Dinoflagelados, continuamos a investigar...
A solução do enigma não estava nas amostras analisadas mais há mais de duzentos quilômetros Uruguai adentro em Cabo Polônio. Ali em 13 de Abril de 1971 afundou o primeiro navio cargueiro especial para o transporte de cargas químicas de fabricação nacional “Taquari” de propriedade do Lóide Brasileiro, consta que batizado pela Dona Scylla esposa do Garrastazu Medice. Ele levava uma carga química da Flórida (EUA) para Buenos Aires para a empresa Siam Di Tella, com Oxido de Propileno; Oxido de Etileno, Etilenglicol e Etilenoimina (substância homogeinizadora de pigmentação na pintura de eletrodomésticos, geladeiras, maquinas de lavar, automóveis etc.), pertencente ao grupo das AZERIDINAS, muitíssimo tóxica.
O navio Taquari partido ao meio - reprodução de Sebastião Pinheiro
A história do naufrágio do Taquari é insólita. Ele naufragou no Cabo Polônio com mar calmo em uma madrugada e vinha com tal velocidade que subiu as rochas e ficou totalmente fora d’água na “Ilha Rasa” em área com um Farol.
O estranho é que a legislação internacional não foi cumprida e não houve guarda para evitar roubos e pirataria no navio acidentado. Embora a carga fosse altamente tóxica, pois tinha soda cáustica, Mercúrio e outros produtos químicos além da carga química mortal já nominada. O tempo passou e o navio ficou esquecido. Cabe a pergunta ele estava assegurado? Foi paga a apólice? E houve descarrego no Instituto de Resseguros do Brasil?
Revista Veja - 10 de maio de 1978- parte 1
Em uma ditadura é muito difícil e perigoso fazer investigação, ainda mais quando buscando os jornais se verifica que um dos marinheiros do Taquari “morreu” em Porto Alegre “atropelado” dentro de um taxi...
Revista Veja - 10 de maio de 1978 - parte 2
O navio que fora lançado ao mar no ano anterior, em sua derradeira viagem alterou sua rota e foi levado sorrateiramente ao porto do Rio de Janeiro, onde recebeu uma volumosa carga colocada no convés coberta com plástico e seguiu viagem. Pessoas bem informadas diziam que o marinheiro morto no “acidente” em Porto Alegre havia denunciado isso minutos antes de seu acidente-decesso.
De um jornalista gaúcho e outros uruguaios escutei: - A ditadura civil-militar recebia muito apoio da ditadura brasileira. O carregamento clandestino de armas levados ao convés no Rio de Janeiro seria desembarcada clandestinamente em um porto natural com sinalização passada ao comandante... Os faróis internacionalmente são identificados desde os navios pelos tempos de duração da luz e espaço escuro.
Agentes de inteligência do MLN-T tinham a informação da desova. Infiltraram seus agentes e mudaram o tempo de luz e escuro dos faróis para que desde o navio não pudesse haver suspeitas e o navio foi conduzido através do código de luz/escuro para as pedras no Cabo Polônio naufragando na praia da Ilha Rasa, tendo a carga de convés aprendida pelos sediciosos. Razão pela qual nenhuma das duas ditaduras assumiu o risco de aproximar-se do navio.
Lutzenberger em seu escritório. Foto do Right Livelihood Award Foundation Archive
Mas e o ISOTIOCIANATO DE METILA? Todas as cargas de ETILENOIMINA são misturadas ao Isotiocianato de metila que atua como um antidetonante para maior segurança no seu transporte. Os óxidos de etileno e propileno são poderosos esterilizantes, por isso os mariscos não apodreciam mesmo trinta dias depois de mortos. O eltilenoglicol foi o responsável pela espuma espessa e a etilenoimina o agente mortal por sua altíssima toxicidade.
Sete anos depois do naufrágio uma maré equinocial (ressaca) no final do verão rompeu os tonéis de oxido de propileno e oxido de etileno, etilenoglicol e etilenoimina liberando a espuma tóxica por mais de mil quilômetros. Um navio oceanográfico da Dow Chemicals esteve frente a Cabo Polônio fazendo suas investigações sigilosamente depois de Hermenegildo... Porque a DOW responsável pelos tonéis vermelhos não alertou a OPAS-OMS IRPTC?
Jornalista da revista alemã Stern: "Em todo o mundo é assim.
No final, quem acaba mesmo levando a culpa é a natureza".
Revista Veja - 26 abril 1978
Uma técnica, suspeito que agente de informações destruiu as amostras coletadas e que estavam em análise, mas o triste foi o “Livro Branco” escrito sobre o que ocorreu em Hermenegildo. O Lutz me emprestou uma cópia xerox. Na Capa constava o título: “Hermenegildo: Um agravo inusitado à Saúde”. O Lutz com sua irreverência riscou a palavra Saúde e escreveu com grafite à Inteligência. Sim, “um agravo inusitado à Inteligência”.
Uma professora argentina que lecionava na Oceanografia (FURG) em Rio Grande veio a público trinta anos depois dizer que jamais existiu maré vermelha em Hermenegildo. Várias entidades comemoraram os trinta anos com eventos e lembranças ecológicas, ambientalistas.
Cartazes "subversivos"
Polícia Federal apreendeu os cartazes do desastre ecológico em Hermenegildo, feitos
pela ambientalista Magda Renner. - Revista Veja - 21 de junho 1978
Minha tristeza aumentou, pois em nenhuma das manifestações encontrei referência critica ao contexto da situação autoritária envolvendo aquele evento, os anseios cidadãos para esclarecê-lo e respeito à cidadania.
Em minha mediocridade sabia que devia ser guardada uma amostra do cadáver autopsiado para as análises de ADN no futuro que possibilitariam sua identificação e luz para uma das muitas famílias dos “Desaparecidos”.
Com a mesmo ênfase e respeito agradeceria as autoridades uruguaias jogarem luzes sobre o naufrágio do Taquari e assuntos correlatos. Será que há registro sobre o “Taquari” nas Seguradoras Marítimas Britânicas?
Texto de Sebastião Pinheiro, postado com autorização do autor.
Sebastião Pinheiro é engenheiro agrônomo, engenheiro florestal e ex-analista do Laboratório de Resíduos de Agrotóxicos do Meio Ambiente, e funcionário do Núcleo de Economia Alternativa (NEA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Membro do Conselho Superior e ex-vice- presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural - AGAPAN.
Agapan promove oficina no FSTemático sobre plantio e consumo de transgênicos No momento em que o Brasil contabiliza dez anos de cultivo de transgênicos e que Porto Alegre sedia mais uma edição do Fórum Social Temático, a Agapan promove debate sobre os aspectos socioeconômicos dos transgênicos, enfatizando suas implicações para a saúde humana e ambiental. O debate será realizado neste primeiro dia de FSTemático (21/1), das 19h às 21h, no Memorial do RS, e integra o Eixo 3, sobre Justiça Social e Ambiental (inscrição nº 1129 - atividade autogestionada).
A palestra será proferida por Antônio Andrioli, vice-reitor da UFFS, membro do GEA, especialista em meio ambiente e representante da Agricultura Familiar na Comissão Técnica Nacional de Biossegureança (CTNBio). Andrioli relatará discussões que participou na Alemanha e na Áustria, em novembro e dezembro de 2013, enfatizando o posicionamento e perspectivas da Comunidade Econômica Europeia sobre a produção e consumo de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs), traçando um paralelo com a situação nacional no momento em que contabilizamos dez anos de cultivo de transgênicos no Brasil.
Após palestra de contextualização, coordenada pelo engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, membro do GEA e da AGAPAN, será aberto espaço de debates e manifestações da plenária. “Durante o evento serão coletadas manifestações da plenária com vistas à construção de propostas de encaminhamento”, destaca o presidente da Agapan, Alfredo Gui Ferreira.
A promoção é da: Agapan, Grupo de Estudos em Agrobiodiversidade (GEA), do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Com o tema central Crise Capitalista, Democracia, Justiça Social e Ambiental, o FST acontece entre os dias 21 e 26 de janeiro, em Porto Alegre e Canoas.
O uso indiscriminado dos venenos agrícolas é uma afronta ao direito à vida.
11 de janeiro - Dia do Controle da Poluição por Agrotóxicos
O filme “Nuvens de Veneno”, do cineasta e professor da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Beto Novaes, reafirma Mato Grosso como
campeão nacional em uso de venenos agrícolas, principalmente no plantio
de grãos.
Em 25 minutos, o documentário mostra os riscos da cultura do
agrotóxico para quem pulveriza as lavouras e para quem come os
alimentos.
O filme foi lançado em Cuiabá, em um evento
na Escola de Saúde Pública, que abordou a saúde do trabalhador da cidade
e do campo em Mato Grosso.
Biocidas “matam vidas” A ética como tônica no combate aos venenos agrícolas
Precisamos nos certificar se a nossa ação é sustentável, isto é, se não implica demolição dos suportes da Vida no planeta, e se está orientada para a justiça social, se não pisa muita gente. Eu não gostaria de ver a humanidade desaparecer, e dentro da humanidade eu gostaria de ver mais equilíbrio. Eu não posso considerar progresso aquilo que não prevê a manutenção da integridade da Vida e o aumento da soma da felicidade humana. (LUTZENBERGER).
Aquilo que as indústrias transnacionais do setor dos venenos agrícolas e o agronegócio chamam eufemisticamente de “defensivos agrícolas” são nada menos do que armas químicas.
“O Brasil continua sendo o maior consumidor de venenos agrícolas do mundo. Infelizmente, cada habitante consome hoje mais de cinco litros por ano desses produtos. Se fosse consumido em um único dia, estávamos todos mortos”. Cerca de 1 bilhão de litros são utilizados anualmente nas lavouras brasileiras, o que representa mais de cinco litros de venenos agrícolas por habitante ao ano. Muitos destes venenos como herbicidas, fungicidas, inseticidas estão proibidos em quase todo mundo pelo risco que representam à saúde pública. O perigo ameaça todos trabalhadores, que manipulam os venenos, bem como todos os cidadãos que consomem os produtos agrícolas.
“No Brasil o consumo de venenos agrícolas não é apenas em excesso, como também existem os proibidos, os desconhecidos, o que pode indicar contrabando”.
“Se já não obedeciam à antiga legislação, imaginem agora. Vivenciamos pulverizações até nos quintais das residências, nos quintais das escolas, nos passeios e vias públicas, nas periferias das cidades”.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que ocorram no mundo cerca de três milhões de intoxicações agudas por agrotóxicos com 220 mil mortes por ano. Dessas, cerca de 70% ocorrem em países do chamado Terceiro Mundo. Além da intoxicação de trabalhadores que tem contato direto ou indireto com esses produtos, a contaminação de alimentos tem levado ao grande número de intoxicações, há mortes dos consumidores mundiais e, muitas vezes, requisitos básicos de segurança para a aplicação, armazenamento e a disposição final dos mesmos não são cumpridos. Diante disso os serviços de informações toxicológicas notificaram ao Ministério da Saúde 193 casos de intoxicação por pesticidas agrícolas, domésticos e raticidas, em 1993.
Constitui-se esse, portanto, um grave problema de saúde pública, demandando intervenção em diversas esferas, inclusive a implantação de um sistema de vigilância da saúde de populações expostas a venenos agrícolas.
Como não dispomos de dados que reflitam a realidade do número de intoxicações e mortes por venenos agrícolas, porém é fácil supor que o tamanho do problema não é pequeno, sendo um dos maiores.
Os biocidas são os principais poluentes do modelo agrícola industrial. Por seu vasto espectro deletério, os venenos organossintéticos não se limitam a um determinado local, apesar de serem aplicados numa área, translocam-se por vários caminhos. A translocação das substâncias tóxicas pode se realizar por meio biológico, pelos processos químicos e físicos, através da atmosfera, do solo, das águas subterrâneas e superficiais.
O uso de venenos agrícolas não pode ser entendido como um problema exclusivamente do meio rural, pois a irradiação desses produtos tóxicos, no meio urbano, é em decorrência do crescente uso nas lavouras, como também, da expansão das áreas de cultivo e áreas urbanas, com sua consequente aproximação de ambas. Por consequência disso, as substâncias chegam muito facilmente à cidade, contidas nos alimentos, nas fontes de água de abastecimento público, ou presentes no ar.
Algumas causas podem ser apontadas para explicar esse alto consumo de biocidas, tais como: imediatismo financeiro, ignorância dos efeitos tóxicos nos animais e no Homem e, mesmo, inconsequência.
Aos agricultores cabe ressaltar o papel de utilizador deste conjunto de produtos e técnicas, muitas vezes sem a real noção do perigo que enfrenta todos os dias. São também vítimas de um modelo que perpetua dependência, no campo financeiro e econômico, pelos financiamentos, pela necessidade de alta produtividade, pelos passivos sociais e ambientais que cabem aos agricultores e a sociedade administrar.
A dimensão têmporo-espacial do uso de biocidas é muito mais complexa do que parece, porque possui diversas interações que se ligam a aspectos políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais. Para entender esta detalhada trama é necessários outros trabalhos científicos que possam aprofundar a compreensão num determinado seguimento e encaixá-los no todo.
A contaminação humana e dos recursos naturais, pelo uso indevido e até excessivo de biocidas, constitui grave problema de saúde pública, podendo levar a intoxicações e óbitos dos seres humanos, causados pela falta de conhecimentos, de cuidados preventivos e manejo agrícola inadequado.
A realidade da aplicação indiscriminada dos venenos agrícolas no meio agrícola. Apesar de a demanda por produtos mais saudáveis estar crescendo, a população ainda está pouco informado sobre essas questões, na medida em que o alimento de boa aparência causa impressão de ser mais saudável.
Urge a necessidade de quebrarmos esse paradigma da aparência do alimento, sob pena de o preço por esse consumo desenfreado e insustentável ser altamente prejudicial para as atuais e futuras gerações.
Os custos ambientais gerados pela utilização indiscriminada de veneos agrícolas, ou seja, pela “política de alimento barato” ou “política do alimento em massa”, podem ser caracterizados pela contaminação dos corpos de água, do solo e do ar, pela perda da biodiversidade e de solos agricultáveis por salinização, acidificação ou erosão e pela redução da qualidade de vida da população.
Estudos muito bem fundamentados continuam comprovando o avanço dos casos de câncer nas mais diversas faixas etárias, resultado do uso de agroquímicos. Os números crescem, sobretudo entre agricultores e populações rurais em localidades onde há um alto índice de aplicação dos venenos.
No dia 21 de março de 2011, pesquisa denunciou a contaminação do leite materno por agrotóxicos usados em plantações no município de Lucas do Rio Verde, a 350 km de Cuiabá (MT). As amostras foram colhidas de 62 mulheres atendidas pelo programa de saúde da família do município. Em 100% das amostras foi encontrado pelo menos um tipo de veneno agrícola e em 85% dos casos foram encontrados entre dois e seis tipos. A substância com maior incidência é conhecida como DDE, um derivado de outro veneno agrícola, DDT, proibido pelo Governo Federal em 1998 por provocar infertilidade no homem e abortos espontâneos nas mulheres.
Sabemos que ao nos alimentarmos estamos nutrindo não apenas o nosso corpo, mas também os sentidos, o espírito, a mente, a nossa alma. Ao prepararmos nossa alimentação, com certeza são necessários vários ingredientes, como história, cultura, poesia, amor, sentimento, que vão muito além do sal e da pimenta.
A alimentação natural e ecológica faz parte da nova visão de mundo, estabelecendo novas relações, dando à vida o seu significado verdadeiro, que é a própria natureza e a alimentação.
Vivemos a cultura de supermercado, onde tudo está a nossa disposição. Consumimos alimentos industrializados e frutas que não são da época, produzidas de maneira forçada, com grande quantidade de insumos químicos e venenos agrícolas.
Hipócrates, dizia “somos o que comemos”. Nosso corpo não deixa de ser uma máquina, muito delicada por sinal, e para funcionar precisa de um bom combustível. Que tipo de alimento está consumindo? Quais as doenças que estamos desenvolvendo?
Mas comida sustentável, além da saúde, estamos tratando de outros diversos temas relacionados à cozinha, como o cuidado com o meio ambiente, o compromisso com a produção local e regional, a consciência ecológica, o consumo de hortaliças e frutas da época e ecológicos. Assim o sistema alimentar ideal seria semelhante ao de nossos avós e bisavós, quanto mais natural melhor, o nosso cardápio diário deveria ser composto de pelo menos 60% de alimentos crus e 40% de alimentos cozidos.
Que tipo de influência e impacto tem sobre o ambiente em que vivemos o alimento que nós consumimos? Como ele é preparado? Como ele é produzido? Internamente, no corpo, o alimento tem uma influência direta nas células vivas, que vivem em perfeita harmonia, quando permitimos; externamente é a nossa casa, o bairro, a cidade, o planeta. Por isso qualquer mudança alimentar que seja feita, dando a devida atenção no que estamos ingerindo, irá trazer muitos benefícios, assim ao cuidar de você, da sua alimentação, automaticamente, estará cuidando do planeta.
Independente de sermos consumidores ou agricultores, todos precisamos de sistemas produtivos sustentáveis, valorizando a sabedoria e as culturas locais, em especial os hábitos alimentares, garantindo a segurança alimentar, gerando renda e um novo olhar sobre o sistema de produção e a vida.
O agronegócio, as transnacionais, as monoculturas, a degradação ambiental em função da busca incessante pelo lucro e pelo acúmulo de riquezas, a prioridade dada às exportações em detrimento da alimentação do povo brasileiro, os transgênicos e o latifúndio, todas essas ameaças e fatores têm avançado bastante na sociedade brasileira nos últimos anos.
Leonardo Boff, na sua sabedoria, nos adverte: “ocorre que a Terra não aguenta mais este tipo de guerra total contra ela. Ela precisa de um ano e meio para repor o que lhe arrancamos durante um ano. O aquecimento global é a febre que denuncia estar doente e gravemente doente”.
São evidentes os sinais da insustentabilidade ecológica do modelo civilizacional pautado no domínio da natureza pelo homem, e sejam adotadas diversas medidas de ordem política e jurídica no intuito de promover uma adequação do exercício das liberdades humanas aos limites da natureza sem prejudicar a continuidade do processo vital, os resultados têm sido pífios.
A insustentabilidade está posta, traduz-se na monocultura da mente que a humanidade vem eficientemente estabelecendo nos últimos séculos. Trata-se do limite intransponível do que se compreende por humano.
A ética acompanha o homem desde os primórdios da civilização, e vem moldando-se com a história da humanidade. Conceber, racional e emocionalmente, finalidades para o agir humanas, a partir de um quadro de incerteza e de uma crise ambiental sem precedentes, que expõe as fragilidades do conhecimento humano e de sua capacidade de interagir ecologicamente, é um desafio que compete à economia, à sociologia, ao direito, mas, sobretudo, à ética.
A ética promove uma reflexão sobre a escolha dos valores da sociedade. É a partir dos valores exsurgentes com a crise ecológica que vive a sociedade de risco, que os danos próprios dessa sociedade, como os danos ambientais, podem vir a serem evitados. Valores como dignidade, justiça, democracia, são valores cujos fundamentos a nova ética deve conformar. Que justiça é pertinente à sociedade pós-moderna, ela implica pensar no futuro? Que compromisso essa compreensão de justiça coloca para os homens do nosso tempo? Reflexões dessa ordem servirão para nortear o futuro da humanidade e, eventualmente, afastá-la das contundentes ameaças que a acompanham neste século. A ética ecológica é, sobretudo, e independentemente das concepções antropocêntricas ou biocêntricas, a ética que tem por finalidade a preservação da Vida.
A ética se relaciona com os venenos agrícolas na medida em que o uso destes gera uma série de implicações nos seres humanos e na natureza. Os venenos agrícolas liberados no ambiente podem causar uma larga escala de efeitos ecológicos e na saúde humana. Vários são carcinógenos comprovados ou suspeitos e podem ter efeitos tóxicos em seres humanos e em espécies aquáticas. Os efeitos na saúde provocados pela exposição crônica, em longo prazo ou a nível baixo de concentrações traço dos agrotóxicos são desconhecidos. Outros interesses incluem efeitos sinergísticos de agrotóxicos múltiplos e também os processos de bioacumulação, bioconcentração e biomagnificação que envolvem a acumulação de substâncias químicas por organismos através da cadeia alimentar.
A responsabilidade ética para com as gerações presentes e futuras, com a qualidade de vida que só se concretiza com a preservação do equilíbrio ecológico, é o cerne da ética. A ética da responsabilidade compreende a cumulatividade das ações humanas e tem a preocupação em resguardar a humanidade dos efeitos cumulativos da tecnologia. Sua proposta requer ação coletiva e tem um apelo a uma cidadania planetária, na medida em que deve estar presente na prática cotidiana de cada indivíduo e nas políticas públicas promovidas pelo Estado, bem como na das organizações supranacionais.
Toda essa mudança de paradigma permite que a humanidade deixe de ser compreendida como portadora de uma condição especialmente deslocada e superior à natureza. Ao contrário, passa a integrá-la e a tornar-se responsável por mantê-la viva, porque dessa nova ótica é possível entender que o homem está irmanado a ela e que a sua própria existência e a de seus descendentes são interdependentes.
É por meio do conhecimento ecologicamente pertinente, da ética consequente e da recuperação do político, que em meio à aparente desconstrução, podem surgir novos sentidos, que não se confundem com as antigas verdades, mas estimulam a solidariedade e a responsabilidade pela Vida.
Infelizmente não há meio termo nesse setor. É impossível garantir a qualidade, a segurança e o volume da produção de alimentos dentro desse modelo degradante. Não há como incentivar o uso correto de venenos agrícolas. Isso não é viável em um país tropical como o Brasil, em que o calor faz roupas e equipamentos de segurança, necessários para as aplicações, virarem uma tortura para os trabalhadores.
A ética ecológica ou ambiental está longe de ser estéril, perdida nas nuvens, metafísico; pelo contrário, ela destina-se a tirar conclusões práticas como a criação de políticas de proteção ao meio ambiente, de solução do conflito entre o homem e a natureza; não é fácil que o homem aceite que a natureza também tem valor intrínseco e que esse já não é um privilégio a ele reservado.
Há que buscar solução na transição agroecológica, ou seja, na gradual e crescente mudança do sistema atual para um novo modelo baseado no cultivo orgânico, mantendo o equilíbrio do solo e a biodiversidade, redistribuindo a terra em propriedades menores.
Assim facilita a rotatividade e o consórcio de culturas, o controle natural às pragas e o resgate das relações entre os seres humanos e a natureza, valorizando o clima e as espécies locais.
Existem muitas experiências bem sucedidas no mundo e no Brasil, que comprovam a viabilidade desse modelo. Até em assentamentos da reforma agrária há exemplos de como promover a qualidade de vida, a justiça social e o desenvolvimento sustentável.
“A agroecologia não é apenas um sistema de produção agrícola, mas também um ato político contra a agricultura predatória e contra as condições de trabalho injustas para o agricultor. Além disso, ajuda na melhoria da qualidade de vida, permitindo tanto ao agricultor quanto ao consumidor não terem contato com agroquímicos. Enfim, mais que uma série de práticas, a agroecologia é uma filosofia de vida”.
A lógica de combater às pragas, insetos, ervas daninhas, pestes implica no principio de que se há de matar o inimigo e, por isso, inseticidas, herbicidas, pesticidas, praguicidas entre outros venenos agrícolas matam, não só o inimigo, mas, também, pessoas, plantas, peixes e outros animais.
A educação agroambiental deve ser uma forma de “regenerar” a mão de obra do campo, tanto no que diz respeito aos efeitos negativos da escravidão, quanto ao desejo de autonomia gerado pela imensa fronteira agrícola. Por isso mesmo, à medida que a campanha abolicionista avança, vão surgindo propostas de ensino agrícola.
A questão é a maneira de viver daqui em diante sobre o planeta, no contexto da aceleração das mutações técnico-científicas e do considerável crescimento demográfico. Em função do contínuo desenvolvimento do trabalho maquínico, redobrado pela revolução informática, as forças produtivas vão tornar disponível uma quantidade cada vez maior do tempo de atividade humana potencial. Mas com que finalidade? A do desemprego, da marginalidade opressiva, da solidão, da ociosidade, da angústia, da neurose, ou da cultura, da criação, da pesquisa, da reinvenção do meio ambiente, do enriquecimento dos modos de vida e de sensibilidade?
Finalmente, devemos lembrar que, antigamente, a Agroecologia era uma prática sagrada. Era ligada ao culto da natureza, vista como divina. Hoje, redescobrimos na Terra, na Água e em todo ser vivo, um sinal da presença do mistério amoroso que envolve o universo. O amor que faz do universo uma comunidade de vida. Que se denomine Deus ou não, esta energia amorosa nos chama a cada um de nós a sermos nós mesmos sementes e mudas fecundas desta amorização do planeta. Cada vez mais as pessoas que seguem algum caminho religioso sabem que a religião só vale a pena se ajudar a humanidade a viver este processo de amorização.
“O grande problema do setor é realmente o déficit de informações, as quais precisam chegar à população, principalmente a quem manipula esses venenos agrícolas”.
Assim não podemos continuar a envenenar cada vez mais o nosso belo Planeta e a nós mesmos. Devemos repudiar a flexibilização no sistema de saúde e meio ambiente no processo de avaliação e autorização de venenos agrícolas.
Texto recebido de Julio Cesar Rech Anhaia - Engº Agrº - Alegrete – RS- 11/01/2014
Todos os dias são de combate ao uso indiscriminado dos venenos agrícolas e em defesa da vida