23 agosto 2009

Resistam! VOTEM NÃO no dia de HOJE!!!!!!!


Não no Só,

por Flávio Tavares*
*Jornalista e escritor
Comparecer à consulta popular deste domingo em Porto Alegre é mais importante do que eleger senador, deputado, vereador ou toda a gentalha que nos faz de mortalha. Diferente de quando nos obrigam a escolhê-los, o voto, neste caso, não é obrigatório. Por isso, ir às urnas agora torna-se ato voluntário para dizer “não” à desastrosa orgia que quer transformar a Capital numa sucessão de caixotes verticais de cimento e tijolos, em que a visão do rio desaparece ou se torna privilégio de poucos.

Se o rio é um bem de todos (até daqueles que o chamam de “lago”), por que amuralhar o Guaíba com prédios e prédios no pontal que cresceu como aterro sobre as águas?

Sim, pois o pontal do Cristal era uma raquítica nesga de terra que adentrava o rio apenas alguns metros. Aterrada com entulho e pedra, expandiu-se para dar lugar ao Estaleiro Só, que – de fato – estava sobre o leito do rio. Em sua origem, é área do Estado concedida em aforamento. Quando o estaleiro faliu, a área foi vendida para pagamento de dívidas. Devia ter voltado ao domínio do Estado para ser gramada e arborizada, já que é uma APP, “área de proteção permanente” contígua ao rio e protegida por lei federal.

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O “chique”, porém, é que as leis existam para serem ultrajadas – não para serem cumpridas – e chegamos ao absurdo de os vereadores decidirem que ali haveria uma minicidade. Em exíguos 60 mil metros quadrados se construiriam dois edifícios comerciais de 12 andares – um, de lojas e escritórios; outro, um hotel com 90 apartamentos, além de prédios residenciais.

Por acaso, a capital gaúcha é uma Holanda, que precisou ganhar espaço ao mar por falta de terra firme? Ou nos sobra espaço para a expansão urbana?

Será por isso que, das galerias da Câmara Municipal, choveram moedas sobre os vereadores, na sessão em que 20 deles votaram a favor da minicidade, dois se abstiveram e 14 disseram “não”?

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Porto Alegre é demais! – reza uma das belas composições musicais do meu amigo José Fogaça, cantarolada com orgulho pelo Rio Grande inteiro. Mas o prefeito Fogaça não soube ou não quis (ou não pôde) articular a maioria de que dispõe entre os vereadores para dar ao pontal do Estaleiro Só uma solução que não fosse guiada pela hipocrisia.

Sim, pois que outra coisa será quando todos nós defendemos o rio com palavras mas, na prática, o escondemos, transformando o panorama das águas em beleza perceptível apenas a quem paga?

O Guaíba vem sendo ferido há dezenas de anos. Degradamos suas águas com fezes e detritos químicos, sem educar sobre o uso dos resíduos domésticos ou industriais. Os aterros encolheram o rio. O Centro Administrativo e os tribunais estão sobre o que era água, tal qual o estádio Beira-Rio e centenas de prédios residenciais, além do prolongamento da Avenida Borges de Medeiros. Os parques Marinha e Maurício Sirotsky, aterrados para serem pontos de convívio com a natureza, cada dia diminuem suas áreas verdes, perdidas para edificações de vários tipos e seus pátios de estacionamento.

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A consulta popular sobre o pontal do Estaleiro Só não é assunto exclusivo da Capital, mas interessa ao Estado e ao país. Aqueles 60 mil metros quadrados têm em si um simbolismo profundo. Que tipo de cidade queremos? Aquela em que nos integramos com a natureza e a vida do planeta como um todo, em que água e terra se entrelaçam com ar e pássaros? Ou a cidade dura, em que asfalto e cimento são reis e os edifícios verticais ocultam morros, limitam espaços ou nos fazem cegos para as águas do rio?

Não, não é essa a cidade que queremos.




Fonte: ZH Dominical, 23 de agosto de 2009.

21 agosto 2009

...verás que um filho teu não foge à luta!




Chegam mais apoios ao NÃO!
- Bibiana Graeff Chagas Pinto – Mestre em Direito Ambiental pela Sorbonne, Doutora em Direito pela Sorbonne e pela UFRGS, Professora Substituta da Faculdade de Direito da UFRGS:
Pela defesa de uma PORTO ALEGRE exemplar em matéria de urbanismo e meio ambiente, assuntos tão sensíveis e ESSENCIAIS nesse início de século XXI, é que venho me manifestar, em apoio ao NÃO a construções residenciais na área do “PONTAL DO ESTALEIRO”. Erros do passado não justificam erros do presente. TEMOS a chance de fazer algo melhor, temos ainda a OPORTUNIDADE DE LUTAR pela ORLA DO GUAÍBA. Por isso, essa votação, esse debate sobre o pontal, são HISTÓRICOS, e vão marcar o destino da cidade de Porto Alegre, como sendo uma CIDADE DIFERENTE, PRA FRENTE, CONSCIENTE DO QUE HOJE NESSE MUNDO TEM MAIS VALOR, ou de uma cidade ATRASADA… cometendo erros que foram cometidos por outras cidades, há trinta, vinte, ou dez anos atrás…
- Rualdo Menegat – Professor da UFRGS, Doutor em Ecologia de Paisagem, Coordenador do Atlas Ambiental de Porto Alegre:
Desfigurar o cenário paisagístico da margem do Guaíba é um delito impensável que acabará por descaracterizar nosso amálgama cultural e dificultar a gestão ambiental desse corpo d’água imprescindível para os habitantes de Porto Alegre. Privatizar a paisagem do Guaíba é retirar da cidade seu direito de dispor do seu mais importante bem ambiental e dos laços que a unem, por meio dessa paisagem, a todo o seu passado.
- Professor Garcia – secretário do Meio Ambiente de Porto Alegre:
Hotel não tem mercado para toda orla, edifícios residenciais tem mercado para toda orla. Edifício é o grande filé , e o meio empresarial fica de olho…
Estou incentivando o “Não”. E vou aproveitar este espaço para votar “não”. Não se desmobilizem, cada voto é importante. Seu voto é decisivo para esse processo! (em entrevista ao programa “Cidadania Ambiental”  na Rádio Ipanema Comunitária)
- Carlos Urbim – jornalista e escritor:
Cravaram antes um muro da vergonha no coração da cidade. Mataram, para quem passa por ali, a visão da água. Depois estreitaram o caminho fluvial para plantar asfalto e concreto administrativo. Deixaram, ao menos, um rastro de verde no Parque Marinha. Agora, por absoluta ganância, querem invadir a ponta do  estaleiro. Porto Alegre não merece tanta agressão. O Guaíba, estrangulado, precisa respirar. E todos os moradores querem aproveitar - sem muros, barreiras e espigões - a beleza única do nosso estuário.
- Luiz Antonio de Assis Brasil – escritor:
O Guaíba não nos pertence; ele percence à História e pertence ao Futuro. Temos de honrar esse compromisso de um espaço do qual somos mero detentores. Votar pelo NÃO é ter consciência de que a Natureza, como bem comum, não pode estar sujeita aos transitórios equívocos de nossas fraquezas.
- Mirna Spritzer – atriz de cinema e teatro:
Votar Não é dizer sim ao Guaíba, ao por do sol, às pessoas e a Porto Alegre.
- Círio Simon – professor e ex-diretor do Instituto de Artes:
Aos doze anos tomei banho no GUAIBA na PRAIA de BELAS em frente ao PÂO dos POBRES. Não me fez mal, pois cheguei  – lúcido e satisfeito- aos 73 anos. A poluição não atingia as águas do rio. Havia o trem para a Tristeza que levava a poluição bem longe e para lugar seguro.
Por que não se pode fazer isto por meios mais modernos do que uma velha Maria FUMAÇA?
Em vez de projetos adequados e coerentes para esta solução dentro dos parãmetros contemporâneos … joga-se para a população se dividir …  projeto de ocupar  o lugar do ESTALEIRO SÒ – que era um templo de trabalho e bem comum – Este lugar NÃO PODERÁ se transformar em um instrumento para exercício de avareza  para alguns privilegiados  e a desgraça de toda população da capital e do estado.
- Néstor Monasterio – ator e diretor teatral:
Desde que eu cheguei por estas terras (1977) assisto (e as vezes participo) de lutas por derrubar o muro da Mauá que separa o Porto do Alegre,  que afasta o porto-alegrense do seu rio, que impede que desfrutemos o pôr-do-sol… luta antiga. Vejamos se eu entendi bem: no dia 23 de agosto terá um plebiscito sobre si queremos quer esse muro seja aumentado? Que mais muros (sejam da forma que for) nos separem do Guaíba? E depois virá mais o quê? Um super-mercado na praia de Ipanema? Uma revenda de carros na Vila Assunção? O progresso tem que ser para os seres humanos e não para as empresas. Construir cidadania e não muros. Defender a natureza e não o lucro que jamais voltará em nosso benefício. Vou votar não.