22 dezembro 2008

20 anos da morte de Chico Mendes

"No começo pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a Floresta Amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade."

Casa de Chico Mendes - Foto: Roraima Moreira da Rocha

No dia 22 de dezembro de 1988 o seringueiro, sindicalista e ativista ambiental Francisco Alves Mendes Filho, mais conhecido como Chico Mendes, foi assassinado em Xapuri, Acre.

Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes, tinha completado 44 anos no dia 15 de dezembro de 1988, uma semana antes de ter sido assassinado. Acreano, nascido no seringal Porto Rico, em Xapurí, se tornou seringueiro ainda criança, acompanhando seu pai.
Sua vida de líder sindical inicia com a fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, em 1975, quando é escolhido para ser secretário geral. Em 1976, participa ativamente das lutas dos seringueiros para impedir desmatamentos através dos "empates". Organiza também várias ações em defesa da posse da terra. Em 1977, participa da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, além de ter sido eleito vereador pelo MDB à Câmara Municipal local. Neste mesmo ano, Chico Mendes sofre as primeiras ameaças de morte por parte dos fazendeiros, ao mesmo tempo que começa a enfrentar vários problemas cem seu próprio partido, o MDB, que não era solidário às suas lutas.
Em 1979, Chico Mendes transforma a Câmara Municipal num grande foro de debates entre lideranças sindicais, populares e religiosas, sendo por isso acusado de subversão e submetido a duros interrogatórios. Em dezembro, do mesmo ano Chico é torturado secretamente. Sem ter apoio, não tem condições de denunciar o fato.
Com o surgimento do Partido dos Trabalhadores, Chico transforma-se num de seus fundadores e dirigentes no Acre, participando de comícios na região juntamente com Lula. Ainda em 1980, Chico Mendes é enquadrado na Lei de Segurança Nacional, a pedido dos fazendeiros da região que procuravam envolvê-lo com o assassinato de um capataz de fazenda que poderia estar envolvido no assassinato de Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Brasiléia.
No ano seguinte, Chico Mendes assume a direção do Sindicato de Xapuri, do qual foi presidente até o momento de sua morte. Nesse mesmo ano, Chico é acusado de incitar posseiros à violência. Sendo julgado no Tribunal Militar de Manaus, consegue livrar-se da prisão preventiva.
Nas eleições de novembro de 1982, Chico Mendes candidata-se a deputado estadual pelo PT não conseguindo eleger-se. Dois anos mais tarde é levado novamente a julgamento, sendo absolvido por falta de provas.
Em outubro de 1985, lidera o 1o Encontro Nacional dos Seringueiros, quando é criado o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), do qual torna-se a principal referência. A partir de então, a luta dos seringueiros, sob a liderança de Chico Mendes, começa a ganhar repercussão nacional e internacional, principalmente com o surgimento da proposta de "União dos Povos da Floresta", que busca unir os interesses de índios e seringueiros em defesa da floresta amazônica propondo ainda a criação de reservas extrativistas que preservam as áreas indígenas, a própria floresta, ao mesmo tempo em que garantem a reforma agrária desejada pelos seringueiros. A partir do 2o Encontro Nacional dos Seringueiros, marcado para março de 1989, Chico deveria assumir a presidência do CNS.
Em 1987, Chico Mendes recebe a visita de alguns membros da ONU, em Xapuri, onde puderam ver de perto a devastação da floresta e a expulsão dos seringueiros causadas por projetos financiados por bancos internacionais. Dois meses depois, Chico Mendes levava estas denúncias ao Senado norte-americano e à reunião de um banco financiador, o BID. Trinta dias depois, os financiamentos aos projetos devastadores são suspensos e Chico é acusado por fazendeiros e políticos de prejudicar o "progresso" do Estado do Acre. Meses depois, Chico Mendes começa a receber vários prêmios e reconhecimentos, nacionais e internacionais, como uma das pessoas que mais se destacaram naquele ano em defesa da ecologia, como por exemplo o prêmio "Global 500", oferecido pela própria ONU.
Durante o ano de 1988, Chico Mendes, cada vez mais ameaçado e perseguido, principalmente por ações organizadas após a instalação da UDR no Acre, continua sua luta percorrendo várias regiões do Brasil, participando de seminários, palestras e congressos, com o objetivo de denunciar a ação predatória contra a floresta e as ações violentas dos fazendeiros da região contra os trabalhadores de Xapuri. Por outro lado, Chico participa da realização de um grande sonho: a implantação das primeiras reservas extrativistas criadas no Estado do Acre, além de conseguir a desapropriação do Seringal Cachoeira, de Darly Alves da Silva, em Xapuri.
A partir daí, agravam-se as ameaças de morte, como o próprio Chico chegou a denunciar várias vezes, ao mesmo tempo em que deixava claro para as autoridades policiais e governamentais que corria risco de vida e que necessitava de garantias, chegando inclusive a apontar os nomes de seus prováveis assassinos.
No 3o Congresso Nacional da CUT, Chico Mendes volta a denunciar esta situação, juntamente com a de vários outros trabalhadores rurais de todas a partes do país. A situação é a mesma, a violência criminosa tem a mão da UDR de norte a sul do Brasil. No mesmo Concut, Chico Mendes defende a tese apresentada pelo Sindicato de Xapuri, "Em Defesa dos Povos da Floresta", aprovada por aclamação por cerca de 6 mil delegados presentes. Ao final do Congresso, ele é eleito suplente da direção nacional da CUT.
Em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes é assassinado na porta de sua casa. Chico era casado com lIzamar Mendes e deixa dois filhos, Sandino, de 2 anos, e Elenira, 4.
*Publicado na Revista "Chico Mendes" pelo STR de Xapuri, CNS e CUT em janeiro de 1989
Leia mais sobre Chico Mendes aqui:
http://www.chicomendes.org

Paul McCartney lembra Chico Mendes:

A casa do Chico:


Amics Arbres - Arbres Amics:
Chico Mendes l'home de la selva

19 dezembro 2008

Uma Ponta de Cinismo? Texto de Juremir Machado da Silva

UMA PONTA DE CINISMO?

Li num jornal que os vereadores de Porto Alegre devem derrubar, nos próximos dias, o veto do prefeito José Fogaça ao projeto Pontal do Estaleiro, mandando para o esquecimento o referendo popular. Eu não posso acreditar nisso. Sou ingênuo. Ainda não perdi a virgindade política. Segundo o texto que li, nossos representantes aproveitariam os interesses de Grêmio e Internacional de também construir em áreas de preservação permanente ou de alterar o plano diretor da cidade e, com uma torcida neutralizando a outra, aproveitariam para fazer passar suavemente o Pontal do Estaleiro. O futebol seria barriga de aluguel do pontal. Não posso crer. Como poderiam os mesmos vereadores que propuseram um referendo ao prefeito, numa saída honrosa para um impasse, jogar no rio a solução da qual eles mesmos se têm gabado tanto?

Como gosto dos nossos edis e sei que muitos deles são puros e inocentes como criancinhas de berço, darei uma sugestão: cuidado com esse tipo de afirmação da mídia. Pode ser uma armadilha ou um desejo. Algo do tipo 'podem ir, que a pista está livre'. Não está. Há quem aposte que o veto será derrubado no dia 29 de dezembro, antevéspera do Ano-Novo, quando metade da população já estará abrindo a primeira garrafa e a outra metade estará a caminho da praia. Não acredito. Seria um pontal de cinismo. Eu, de minha modesta parte, não creio que os vereadores sejam contra a preservação do maior capital do futuro, a natureza. O Pontal do Estaleiro ficaria quase dentro do Guaíba. Ali não se tem de colocar 1 só milímetro de concreto. Nem comercial. Nem residencial. O melhor é que seja um parque. A alteração da lei, quando Tarso Genro era prefeito, permitindo certas edificações na orla, foi um erro. No passado, o Guaíba deixou de ser rio e virou lago para que se pudesse tentar fugir das leis de preservação. Não colou. A lei orgânica assegura que o interesse privado não pode se sobrepor ao da coletividade.

Certos vereadores podem estar com medo de decepcionar o Bom Velhinho. Mas não é preciso presentear a especulação imobiliária para se sentir legal ou com espírito natalino. Caros vereadores, não caiam nesse papo de modernidade. É conversa de camelô, de apreciador de mesa de fórmica e de vendedor de pirâmide. Só por causa disso, não temos mais uma rede ferroviária decente para transporte de passageiros como qualquer nação européia atrasada (França, Alemanha...). Nada é mais moderno do que árvore, grama, beira de rio limpa e grandes áreas verdes preservadas. O melhor presente de Natal seria Porto Alegre adquirir a ponta do Estaleiro, pelos míseros 7 milhões pagos pelo atual dono, para uso de todos.

As cidades do futuro serão avaliadas pelo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e pelo ICN (Índice de Conservação da Natureza). Há quem chame os ecologistas de 'ecochatos'. Muito piores são os 'investimalas'. Esses só pensam em dinheiro. A qualquer preço. A qualquer custo. Contra qualquer lei. São os mesmos que eram contra qualquer lei antibagismo, visto que isso geraria desemprego, afetaria impostos, diminuiria verbas publicitárias e prejudicaria poderosos interesses. É gente radical, xiitas do cimento, fundamentalistas, contra tudo que não possa ser convertido em moeda sonante ou privilégios. Nossos vereadores são idealistas. Eu sei.

Texto do jornalista e escritor Juremir Machado da Silva,
publicado no jornal Correio do Povo em 19/12/08

18 dezembro 2008

O Meio Ambiente ou a Copa?

Charge de Eugênio Neves

Com a desculpa de Porto Alegre ser uma das possíveis sedes de alguns jogos da Copa do Mundo de 2014, nossa distinta Câmara de Vereadores planeja alterar regimes urbanísticos, alterar índices construtivos e também, de carona, derrubar o veto do prefeito José Fogaça ao chamado projeto Pontal do Estaleiro. E tudo isso já no dia 29 de dezembro, sem maiores discussões, mesmo entre as comissões internas da própria Câmara.
Querem usar a paixão popular pelo futebol, para estuprar o futuro da cidade. Interessante é a data marcada para a votação, 29 de dezembro, bem no final do ano. Tradicionalmente as pessoas estão pensando nas férias de verão, passagem de ano, indo para as praias, poucas possibilidades de mobilização contra o que estarão votando! Esperteza digna de punguistas e descuidistas, comuns nessa época do ano em nossas ruas e que aproveitam o menor descuido para dar o bote.

Coluna da Rosane de Oliveira, dia 17 de dezembro, no jornal Zero Hora:

Na carona da torcida Gre-Nal

“A se confirmar a previsão de que o Ministério Público arquivará a investigação sobre a suposta oferta de propina a vereadores para votarem o projeto do Pontal do Estaleiro, a Câmara deverá derrubar nos próximos dias o veto do prefeito José Fogaça. E a proposta de um referendo para que a população diga sim ou não à autorização para construir edifícios residenciais na orla do Guaíba ficará para outra encarnação.

Por trás da provável derrubada do veto está a percepção de que as resistências se diluirão diante da votação dos projetos do Grêmio e do Internacional, que têm forte impacto ambiental e arquitetônico na orla, no antigo Estádio dos Eucaliptos, nos arredores do Olímpico e na região onde será construída a futura arena do Grêmio, no bairro Humaitá. Como as propostas serão apreciadas em conjunto neste final de ano, os vereadores avaliam que a torcida de um time neutralizará a oposição da outra – e que as organizações não-governamentais de defesa do ambiente não terão a força que tiveram para protestar contra o Pontal do Estaleiro.

Mesmo com as pressões em contrário, o projeto do Pontal foi aprovado. Ao vetá-lo, Fogaça argumentou que considera necessário ampliar a discussão e, com base na sugestão dos próprios vereadores, propôs um referendo.

A decisão de analisar o veto este ano ou em fevereiro deverá ser tomada hoje à tarde. O presidente da Câmara, vereador Sebastião Melo (PMDB), afirma que colegas se manifestaram favoráveis à apreciação do tema no mesmo dia em que deverão ser decididos os projetos dos times.

Se ficar para fevereiro, o resultado será imprevisível, já que novos parlamentares terão sido empossados. Se decidirem votá-lo este ano, como a composição da Câmara continua a mesma que aprovou a proposta, a tendência será derrubar a posição de Fogaça.”

Abertura da Página 10 de ZH


O incrível nisso tudo é que se derrubarem o veto do prefeito, não apenas estarão contrariando o próprio chefe do executivo, que a maioria da Câmara apóia, como igualmente o que foi divulgado pela imprensa: "teria partido dos próprios vereadores a sugestão de referendo, em caso de posição negativa."

Percebe-se, faz algum tempo, que este é um jogo de cartas marcadas. E quem ganha não é a cidade nem a população, apenas o poder econômico e alguns políticos de ética muito discutível.

Considerados os mais importantes e também os mais polêmicos de 2008, os projetos do Pontal do Estaleiro e da dupla Grenal alteram o regime urbanístico de diversos pontos da cidade, entre eles a orla do Guaíba. O primeiro autoriza construções residenciais na área do antigo Estaleiro Só.
Os da dupla Grenal modificam os índices construtivos do terreno do estádio Olímpico, no bairro Azenha, da área prevista para a Arena do Grêmio, no bairro Humaitá, do estádio dos Eucaliptos e do Beira-Rio, ambos no bairro Menino Deus. Na Azenha e no Humaitá, a altura máxima prevista é de 70 metros e 72 metros, respectivamente. Para as áreas do Menino Deus, os índices podem variar de 12 a 52 metros.
O assunto dominou a reunião conjunta das comissões permanentes realizadas durante todo o dia de ontem. Os vereadores aprovaram os pareceres favoráveis às propostas da dupla Grenal e da Secopa e agora os projetos estão prontos para ir ao plenário.
(Jornal do Comércio)
Charge de Eugênio Neves