19 dezembro 2008

Uma Ponta de Cinismo? Texto de Juremir Machado da Silva

UMA PONTA DE CINISMO?

Li num jornal que os vereadores de Porto Alegre devem derrubar, nos próximos dias, o veto do prefeito José Fogaça ao projeto Pontal do Estaleiro, mandando para o esquecimento o referendo popular. Eu não posso acreditar nisso. Sou ingênuo. Ainda não perdi a virgindade política. Segundo o texto que li, nossos representantes aproveitariam os interesses de Grêmio e Internacional de também construir em áreas de preservação permanente ou de alterar o plano diretor da cidade e, com uma torcida neutralizando a outra, aproveitariam para fazer passar suavemente o Pontal do Estaleiro. O futebol seria barriga de aluguel do pontal. Não posso crer. Como poderiam os mesmos vereadores que propuseram um referendo ao prefeito, numa saída honrosa para um impasse, jogar no rio a solução da qual eles mesmos se têm gabado tanto?

Como gosto dos nossos edis e sei que muitos deles são puros e inocentes como criancinhas de berço, darei uma sugestão: cuidado com esse tipo de afirmação da mídia. Pode ser uma armadilha ou um desejo. Algo do tipo 'podem ir, que a pista está livre'. Não está. Há quem aposte que o veto será derrubado no dia 29 de dezembro, antevéspera do Ano-Novo, quando metade da população já estará abrindo a primeira garrafa e a outra metade estará a caminho da praia. Não acredito. Seria um pontal de cinismo. Eu, de minha modesta parte, não creio que os vereadores sejam contra a preservação do maior capital do futuro, a natureza. O Pontal do Estaleiro ficaria quase dentro do Guaíba. Ali não se tem de colocar 1 só milímetro de concreto. Nem comercial. Nem residencial. O melhor é que seja um parque. A alteração da lei, quando Tarso Genro era prefeito, permitindo certas edificações na orla, foi um erro. No passado, o Guaíba deixou de ser rio e virou lago para que se pudesse tentar fugir das leis de preservação. Não colou. A lei orgânica assegura que o interesse privado não pode se sobrepor ao da coletividade.

Certos vereadores podem estar com medo de decepcionar o Bom Velhinho. Mas não é preciso presentear a especulação imobiliária para se sentir legal ou com espírito natalino. Caros vereadores, não caiam nesse papo de modernidade. É conversa de camelô, de apreciador de mesa de fórmica e de vendedor de pirâmide. Só por causa disso, não temos mais uma rede ferroviária decente para transporte de passageiros como qualquer nação européia atrasada (França, Alemanha...). Nada é mais moderno do que árvore, grama, beira de rio limpa e grandes áreas verdes preservadas. O melhor presente de Natal seria Porto Alegre adquirir a ponta do Estaleiro, pelos míseros 7 milhões pagos pelo atual dono, para uso de todos.

As cidades do futuro serão avaliadas pelo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e pelo ICN (Índice de Conservação da Natureza). Há quem chame os ecologistas de 'ecochatos'. Muito piores são os 'investimalas'. Esses só pensam em dinheiro. A qualquer preço. A qualquer custo. Contra qualquer lei. São os mesmos que eram contra qualquer lei antibagismo, visto que isso geraria desemprego, afetaria impostos, diminuiria verbas publicitárias e prejudicaria poderosos interesses. É gente radical, xiitas do cimento, fundamentalistas, contra tudo que não possa ser convertido em moeda sonante ou privilégios. Nossos vereadores são idealistas. Eu sei.

Texto do jornalista e escritor Juremir Machado da Silva,
publicado no jornal Correio do Povo em 19/12/08

18 dezembro 2008

O Meio Ambiente ou a Copa?

Charge de Eugênio Neves

Com a desculpa de Porto Alegre ser uma das possíveis sedes de alguns jogos da Copa do Mundo de 2014, nossa distinta Câmara de Vereadores planeja alterar regimes urbanísticos, alterar índices construtivos e também, de carona, derrubar o veto do prefeito José Fogaça ao chamado projeto Pontal do Estaleiro. E tudo isso já no dia 29 de dezembro, sem maiores discussões, mesmo entre as comissões internas da própria Câmara.
Querem usar a paixão popular pelo futebol, para estuprar o futuro da cidade. Interessante é a data marcada para a votação, 29 de dezembro, bem no final do ano. Tradicionalmente as pessoas estão pensando nas férias de verão, passagem de ano, indo para as praias, poucas possibilidades de mobilização contra o que estarão votando! Esperteza digna de punguistas e descuidistas, comuns nessa época do ano em nossas ruas e que aproveitam o menor descuido para dar o bote.

Coluna da Rosane de Oliveira, dia 17 de dezembro, no jornal Zero Hora:

Na carona da torcida Gre-Nal

“A se confirmar a previsão de que o Ministério Público arquivará a investigação sobre a suposta oferta de propina a vereadores para votarem o projeto do Pontal do Estaleiro, a Câmara deverá derrubar nos próximos dias o veto do prefeito José Fogaça. E a proposta de um referendo para que a população diga sim ou não à autorização para construir edifícios residenciais na orla do Guaíba ficará para outra encarnação.

Por trás da provável derrubada do veto está a percepção de que as resistências se diluirão diante da votação dos projetos do Grêmio e do Internacional, que têm forte impacto ambiental e arquitetônico na orla, no antigo Estádio dos Eucaliptos, nos arredores do Olímpico e na região onde será construída a futura arena do Grêmio, no bairro Humaitá. Como as propostas serão apreciadas em conjunto neste final de ano, os vereadores avaliam que a torcida de um time neutralizará a oposição da outra – e que as organizações não-governamentais de defesa do ambiente não terão a força que tiveram para protestar contra o Pontal do Estaleiro.

Mesmo com as pressões em contrário, o projeto do Pontal foi aprovado. Ao vetá-lo, Fogaça argumentou que considera necessário ampliar a discussão e, com base na sugestão dos próprios vereadores, propôs um referendo.

A decisão de analisar o veto este ano ou em fevereiro deverá ser tomada hoje à tarde. O presidente da Câmara, vereador Sebastião Melo (PMDB), afirma que colegas se manifestaram favoráveis à apreciação do tema no mesmo dia em que deverão ser decididos os projetos dos times.

Se ficar para fevereiro, o resultado será imprevisível, já que novos parlamentares terão sido empossados. Se decidirem votá-lo este ano, como a composição da Câmara continua a mesma que aprovou a proposta, a tendência será derrubar a posição de Fogaça.”

Abertura da Página 10 de ZH


O incrível nisso tudo é que se derrubarem o veto do prefeito, não apenas estarão contrariando o próprio chefe do executivo, que a maioria da Câmara apóia, como igualmente o que foi divulgado pela imprensa: "teria partido dos próprios vereadores a sugestão de referendo, em caso de posição negativa."

Percebe-se, faz algum tempo, que este é um jogo de cartas marcadas. E quem ganha não é a cidade nem a população, apenas o poder econômico e alguns políticos de ética muito discutível.

Considerados os mais importantes e também os mais polêmicos de 2008, os projetos do Pontal do Estaleiro e da dupla Grenal alteram o regime urbanístico de diversos pontos da cidade, entre eles a orla do Guaíba. O primeiro autoriza construções residenciais na área do antigo Estaleiro Só.
Os da dupla Grenal modificam os índices construtivos do terreno do estádio Olímpico, no bairro Azenha, da área prevista para a Arena do Grêmio, no bairro Humaitá, do estádio dos Eucaliptos e do Beira-Rio, ambos no bairro Menino Deus. Na Azenha e no Humaitá, a altura máxima prevista é de 70 metros e 72 metros, respectivamente. Para as áreas do Menino Deus, os índices podem variar de 12 a 52 metros.
O assunto dominou a reunião conjunta das comissões permanentes realizadas durante todo o dia de ontem. Os vereadores aprovaram os pareceres favoráveis às propostas da dupla Grenal e da Secopa e agora os projetos estão prontos para ir ao plenário.
(Jornal do Comércio)
Charge de Eugênio Neves

10 dezembro 2008

Veto TOTAL!

Charge de Santiago no jornal Extra Classe (link aqui)

Prefeito José Fogaça VETA totalmente o projeto "Pontal do Estaleiro".

Uma vitória da cidadania e de toda a cidade!



Veja mais no Blog
Porto Alegre RESISTE!
Prefeito VETOU!

Leiam a excelente matéria da jornalista Naira Hofmeister sobre o projeto Pontal do Estaleiro no Extra Classe:
Pontal da discórdia, um romance "quase(?)" policial